SUBSTITUIÇÃO DA ERITRINA POR OUTRAS ESPÉCIES ARBÓREAS DE VALOR ECONÔMICO – UM ENFOQUE SUSTENTÁVEL DE MODERNIZAÇÃO AGRÍCOLA.

 

Introdução

Há pelo menos dois séculos a cacauicultura constitui-se numa das mais importantes atividades agrícolas do Estado da Bahia. Milhares de pessoas dependem direta ou indiretamente dessa cultura para sua sobrevivência na principal região produtora de cacau do Brasil.

Nos últimos anos, entretanto, a região sul baiana vem atravessando uma crise sem precedentes em razão deste monocultivo. Vários fatores têm concorrido para a ineficiência deste modelo agrícola. Dentre estes se destacam: o elevado custo de manutenção durante o período que se estende da implantação da cultura à fase de estabilização da produção; a concorrência entre plantas; e a extensão de áreas ocupadas com baixa densidade de plantas.

Tais fatores geralmente elevam o custo de produção, tornando o agronegócio cacau pouco competitivo, especialmente em ocasiões de crise, como aquelas causadas pela escassez de crédito, aumento da oferta do produto no mercado mundial, elevado custo de insumos e da mão-de-obra, preços baixos e, sobretudo queda na produção e produtividade, agravada ainda mais pela incidência e severidade do fungo (Crinipellis perniciosa), causador da doença conhecida por “vassoura-de-bruxa”.

Portanto, esta situação evidencia a necessidade premente de repensar ambas as culturas (cacau e seringueira) visando modernizá-las para atender as novas demandas de um mundo cada vez mais globalizado sem, contudo, causar danos ou alterações ao meio ambiente.

Daí propor-se a substituição das eritrinas utilizadas como árvores de sombra permanente nas lavouras de cacau, por outras espécies de valor econômico, a exemplo da seringueira, dando-se ênfase àquelas áreas em que há irregularidades no sombreamento.

Porque fazer a substituição?

A região cacaueira baiana passa por um processo de reabilitação das suas lavouras, em decorrência principalmente da vassoura-de-bruxa. O projeto já em curso prevê numa primeira fase a renovação de 300 mil dos 615 mil hectares existentes. Desta área total, há uma estimativa de que pelo menos 150 mil foram implantados através do sistema conhecido regionalmente como “derruba total”. Neste sistema de plantio, a vegetação natural foi totalmente eliminada, com posterior reposição de um número reduzido de outras espécies com fins específicos de prover sombra provisória (mandioca e bananeiras) e permanente (eritrinas, ingazeira, cajazeira, gmelina).

A maioria das espécies utilizadas para sombreamento, apesar de fornecer também produto de valor comercial, nunca foi economicamente explorada dentro do agronegócio cacau, mas simplesmente usada como plantas provedoras de sombra. Assim, a implementação de outras estratégias torna-se necessária para promover com eficácia o desenvolvimento sócio-econômico desta região, dentro da concepção de uma agricultura sustentável.

Neste contexto, a CEPLAC está propondo a substituição das eritrinas por outras espécies de valor econômico, com o objetivo de maximizar o uso da terra a custos reduzidos, agregando receitas, sem, contudo, causar danos ou alterações ao meio ambiente.

Como será feita a substituição?

A substituição será feita de maneira a causar os menores danos possíveis aos cacaueiros remanescentes nas lavouras atacadas por vassoura-de-bruxa. As eritrinas ou outras espécies afins serão derrubadas, direcionando-as para os locais da área com maior falha de cacaueiros, aproveitando-se, posteriormente toda a madeira. Feito isto, o passo seguinte consiste no balizamento e abertura das covas para o plantio concomitante das árvores de sombra provisória e permanente. No caso especifico da seringueira, a mesma será implantada de forma continua entre quatro cacaueiros e, a depender da topografia, em espaçamentos maiores que os tradicionalmente utilizados, buscando com isso, melhor qualidade de sombra para o cacau e um equilíbrio produtivo e econômico para ambas as culturas (Fig. 1).

O sombreamento provisório será implantado quando necessário, ou seja, em situações em que houver muitas falhas e o cacaueiro adulto não for possível de prover sombra adequada para os novos enxertos. Neste caso, adotar-se-á o modelo de plantio em que a cada duas filas simples de bananeiras (3,0 em 3,0 m) serão intercaladas com uma linha de gliricídia (6,0 m em 6,0m) sempre entre as alamedas de seringueira (Fig. 1). Este procedimento não somente possibilitará a agregação de receitas adicionais, ainda na fase de renovação dos cacaueiros, como também ajudará na melhoria das condições de fertilidade do solo com a fixação contínua de nitrogênio.

Figura 01 – Substituição de Eritrinas por Seringueiras espaçadas de 12,0 m x 2,5 m
(densidade 333 plantas por hectare).

Riscos e dificuldades da substituição

A substituição das árvores de sombra permanente só deve ser feita através da derruba das eritrinas e espécies afins em lavouras de cacau em que ainda não se deu início aos trabalhos de enxertia. Nas áreas onde os cacaueiros já se encontram enxertados, a substituição também pode ser feita desde que as eritrinas sejam eliminadas quimicamente. Para isso é imprescindível o envolvimento de técnicos da CEPLAC por se tratar de atividades de risco que normalmente exigem maiores cuidados.

Os cacauais estabelecidos no sistema de plantio em “cabruca”, não serão contemplados nesta proposta e devem ser estrategicamente evitados, por constituírem-se em uma forma de manutenção e preservação de espécies importantes do ecossistema da Mata Atlântica baiana.

Este modelo de consorciação só deve ser aplicado em lavouras de cacau que apresentem relevo favorável, solos profundos e bem drenados, evitando-se com isso os danos que normalmente são causados ao plantio da seringueira quando estabelecidos em áreas de baixada e/ou com impedimentos físicos.

Quando da exploração econômica do seringal atenção especial deve ser dispensada no tratamento preventivo de doenças fúngicas, em especial aquelas que ocorrem no painel, isto porque ambas as culturas são suscetíveis ao ataque de Phytothphora sp, principalmente em períodos de alta umidade relativa do ar.

Vantagens e potencialidades da substituição

Além das vantagens comumente observadas em quase todos os consórcios (controle natural das invasoras, reciclagem de nutrientes e compartilhamento residual dos fertilizantes), esta substituição traz outras vantagens agronômicas que merecem ser destacadas:

· Redução dos riscos ecológicos e econômicos inerentes às monoculturas;

· Desenvolvimento de um microclima mais favorável à proliferação de polinizadores naturais, isto porque tanto o cacaueiro como seringueira são polinizadas pelas mesmas micromoscas da família Heleidae.

· Redução dos danos causados pelo Microcyclus ulei (responsável pela enfermidade denominada mal-das-folhas da seringueira), a qual pode estar relacionada ao melhor manejo dispensado aos cacaueiros.

· Melhoria das condições de sombreamento do cacaueiro em decorrência da troca natural de folhas da seringueira, permitindo maior penetração de luz e, conseqüentemente, estimulando a frutificação dos cacaueiros em períodos mais definidos.

· Maior flexibilidade na comercialização de ambos os produtos em épocas mais favoráveis.

· Por serem atividades de longo ciclo de exploração econômica contribuem para a fixação do homem no campo.

Além disso, é importante ainda ressaltar que o custo desta substituição é mínimo, pois implica apenas em despesas com mão-de-obra para derruba e retiradas das árvores de sombra, aquisição de mudas de seringueira, bananeiras e estacas de gliricídias, balizamento e abertura de covas, e plantio. Estes gastos poderão ainda ser amortizados com a comercialização da madeira da sombra retirada, o que já vem sendo explorado para diversos fins.

Convém mencionar que os tratos culturais normalmente dispensados aos cacaueiros serão suficientes para atender plenamente às necessidades fisiológicas das culturas permanentes. A adoção deste sistema não implica na incorporação de novas áreas ao processo de produção, ou seja, não obriga a novos desmatamentos, o que o torna ainda mais atrativo sobre aspectos prático, econômico, social e, mais especificamente, o ecológico.

Literatura Consultada

ALVIN, R. and NAIR, P. K. R. 1986. Combinaction of cacao with other plantation crops. An agroforestry sistem in southeast Bahia. Brazil. Agroforestry Sistems 4(1) 3 - 15.

MARQUES, J.R.B.; MONTEIRO, W.R. e LOPES, U.V. 2002. Seringueira: Uma opção econômica e ecológica para o sombreamento de cacaueiros. In: Congresso Brasileiro Sistemas Agroflorestais, 4, 2002, Ilhéus. Anais do IV Congresso Brasileiro. Sistemas Agroflorestais. Ilhéus: CEPLAC, UESC, 1 CD.

MONTEIRO, W. R., MARQUES, J. R. B. Consorciação - a saída para modernização de sistema de exploração agrícola da região cacaueira. Jornal AGORA, Suplemento Rural, Itabuna-Ba, p.8-8, 2002.

José Raimundo Bonadie Marques
Wilson Reis Monteiro
CEPLAC/Centro de Pesquisas do Cacau - Cepec - Itabuna, Bahia