Seringueira: uma opção econômica e
ecológica para sombreamento de cacaueiros

 

Introdução

A região sudeste da Bahia contempla uma vasta extensão do ecossistema da Mata Atlântica, no qual o cacaueiro e a seringueira coexistem há muito tempo, porém em plantios individualizados. O cacaueiro requer sombreamento permanente para o seu desenvolvimento e, geralmente, espécies sem nenhum valor econômico têm sido utilizadas. O sistema de plantio em “cabruca” que envolve o raleamento da mata também foi amplamente adotado, mas a falta de critério na escolha das árvores de sombra não surtiu o efeito esperado em termos de produção, dada uma série de inconvenientes. A seringueira é cultivada geralmente em solos de baixa fertilidade, ocupando extensas áreas que poderiam ser melhores exploradas. Essas culturas possuem características complementares nos requerimentos ecológicos o que permitem ser exploradas conjuntamente, com inúmeros benefícios mútuos (Marques e Monteiro, 1997). Muito embora haja registros de algumas experiências mal-sucedidas, estas podem ser atribuídas à inobservância de alguns fatores fundamentais, como a qualidade e intensidade de sombra, o espaçamento de plantio das seringueiras, entre outros (Alvim, 1987).

Ainda não há exemplos de plantios simultâneos de cacau e seringueira. Atualmente, existem clones de seringueira que melhor se ajustam ao consórcio dada à sua arquitetura e densidade foliar. Em espaçamentos mais apropriados, certamente podem proporcionar um sombreamento de qualidade aos cacaueiros e uma exploração mais econômica de ambos cultivos. Essa proposta deve ser estendida para as áreas de cacau em renovação visando a substituição do sombreamento. Os níveis de produtividade de borracha certamente serão aumentados em virtude da transferência deste cultivo para solos de maior fertilidade. O presente trabalho objetiva testar e/ou validar duas sugestões de consórcio, utilizando-se clones mais adequados de seringueira e cacaueiro.

Materiais e Métodos

Uma unidade demonstrativa de consórcio entre cacaueiro e seringueira de 1,0 ha foi instalada em 1999, no campo experimental do Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec), Ilhéus, BA, em solos de alta fertilidade, classificados como tipo Cepec. Adotou-se dois dispositivos de plantio resultantes da combinação de espaçamentos de plantio entre e dentro das linhas duplas de seringueira e das linhas de cacaueiro.O delineamento usado foi o inteiramente casualizado, com parcelas subdivididas, tendo-se na parcela duas combinações de espaçamentos cacau-seringueira (Tratamentos) e 15 clones de cacau nas subparcelas (subtratamentos). Os tratamentos usados foram: Trat 1= cacau 3,0 x 1,5 m + seringueira 14 m entre renques e Trat 2 = cacau 2,0 x 3,0 m + seringueira 13 m entre renques e os subtratamentos foram 15 clones de cacaueiros resistentes à vassoura-de-bruxa, pertencentes às séries PR e CP. De um lado das parcelas usou-se um renque de seringueira no espaçamento 3,0 x 3,0 m e do outro, 3,0 x 2,5 m, guardando um afastamento de 2,5m das linhas de seringueira. O clone de seringueira utilizado foi o SIAL 893, cujas mudas foram preparadas em sacolas plásticas e plantadas com dois lançamentos foliares maduros. Os 15 clones de cacau foram enxertados em porta-enxertos com cinco e seis meses de idade, da variedade Theobahia, diretamente estabelecidos no campo. Outras culturas de ciclo curto e semiperenes também foram concomitantemente exploradas na fase inicial do estabelecimento das duas culturas principais. Inicialmente, plantaram-se bananeiras e milho. Este último por dois períodos sucessivos entre os renques de seringueira. Após os ciclos do milho, introduziu-se a mandioca (aipim) e, por fim, as gliricídias. As seringueiras foram avaliadas nos dois primeiros anos com base em medidas de vigor, tomando-se o diâmetro do caule a 50 cm do solo. As avaliações nos cacaueiros deram-se início um ano após as enxertias terem sido realizadas, observando-se os caracteres de produção, incidência de doenças em frutos, almofadas florais e copa, diâmetro do tronco à altura do primeiro esgalhamento e a floração, onde um critério de notas zero ou 1 foi adotado para expressar presença ou ausência de flores.

Resultados e Discussão

A análise dos dados de crescimento do tronco da seringueira mostra que não houve diferença estatística (p = 0,6775) entre os dois espaçamentos testados. Tal comportamento é esperado, tendo em vista que estas plantas encontram-se, ainda, em fase inicial de crescimento e os efeitos devido à competição ainda não se manifestaram. Entretanto, nos dois tratamentos verificaram-se taxas de crescimentos anuais superiores àquelas obtidas em diferentes cultivos monoclonais de seringueira ou mesmo, em áreas consorciados experimentalmente (Gonçalves e Rossetti, 1982). Os incrementos observados no diâmetro do tronco foram de quase 100% e, mantendo-se esta mesma tendência, espera-se que tais plantas iniciem o processo de sangria já a partir do quinto ano de idade. Isso representaria um grande ganho, pois normalmente a maioria dos seringais estabelecidos na Bahia atinge, em média, a maturidade produtiva aos sete anos de implantados (Tabela 1).

Tabela 1 – Valores médios anuais observados para o diâmetro do tronco das seringueiras (mm), segundo espaçamento de plantio. UDSAF - Cacau x Seringueira, CEPEC, 2002.

Espaçamento (m)

Ano

Incremento anual

Média 2000/2001

Espaçamento (m)

Ano

Incremento anual

Média 2000/2001

2000

2001

2000

2001

13 x 3 x 2,5

18,22

35,70

17,47

26,96

14  x 3  x 2,5

24,12

40,98

16,85

32,55

13  x 3 x 3,0

24,97

40,49

15,52

32,73

14  x 3  x 3,0

20,86

33,44

12,58

25,15

Média

22,67

38,07

16,50

29,85

Média

15,39

30,37

14,72

28,85

Os dados de floração, produção de frutos, incidência de doenças e de vigor foram analisados estatisticamente e os resultados das anovas e as médias são apresentadas nas tabelas 2 e 3, respectivamente. Os dois espaçamentos entre cacaueiros não tiveram qualquer influência sobre a floração, o que pode ser atribuído ao estado juvenil das plantas enxertadas, com idade de aproximadamente 14 meses. Na primeira avaliação, o percentual médio de plantas floridas em cada clone foi de 35%, variando entre 9 a 49%. Este percentual demonstra uma precocidade e sincronismo em floração, garantindo, assim, uma distribuição adequada de pólen na população, o que certamente reduzirá os efeitos da incompatibilidade gamética sobre o nível de frutificação dos clones. Para o caráter produção, registrou-se separadamente as quantidades de frutos sadios, atacados por vassoura-de-bruxa, podridão-parda e roedores e os mumificados. Como a quantidade de frutos perdidos foi praticamente nula, a produção potencial foi expressa pelo número de frutos sadios por planta. Igualmente, os espaçamentos entre cacaueiros não tiveram qualquer influência sobre a produção de frutos, pois a competição entre plantas ainda é mínima ou inexistente, pelas mesmas razões apresentadas anteriormente. Em se tratando de dados preliminares, a produção média de 0,48 fruto por planta para o conjunto de clones escolhidos evidencia um comportamento produtivo bastante satisfatório, mostrando também que o dispositivo de plantio adotado reduziu os efeitos da incompatibilidade sobre a frutificação. O clone PR-84 foi o que mais se destacou dentre os demais, com média de 2,55 frutos/planta. Como os cacaueiros são submetidos à poda de formação, a análise de crescimento dos mesmos baseou-se na medida do diâmetro do tronco à altura do primeiro esgalhamento, o que permite fazer inferências sobre o vigor vegetativo dos clones. Nota-se que os espaçamentos utilizados também não tiveram qualquer influência sobre o desenvolvimento das plantas. Todavia essas diferenças são significativas entre os clones testados. O diâmetro médio do caule foi de 3,74 cm, com uma variação média de 2,66 a 4,56.

Tabela 2 – Resumo das análises de variância para os caracteres de floração (Flo), produção de frutos (NFS,) e vigor vegetativo (DTR) dos clones de cacaueiro utilizados no consórcio. UDSAF - Cacau x Seringueira, CEPEC, 2002.

Causa de variação

Quadrados médios

Flo

NFS

DTR

Espaçamento

0,067  ns

0,199 ns

0,182 ns

Repetição (espaçam.)

0,810 **

1,772 **

25,835 **

Clone

0,088   *

1,693  *

2,072  *

Cone x Espaçamento

0,017  ns

0,500 ns

0,141 ns

Resíduo

0,040

0,427

0,478

(**) Significativo ao nível de 1% de probabilidade; (*) Significativo ao nível de 5% de probabilidade; e (ns) Não Significativo.

Em cacau, a incidência de vassoura-de-bruxa e podridão-parda foi praticamente nula. Apenas no clone PR-84 observou-se médias de 0,06 vassouras em fruto e 0,01 em copa. Este mesmo clone e os PR-13 e CP-47 apresentaram, em média, uma perda de frutos por planta devido à podridão-parda inferior a 0,02. Na seringueira não se verificou qualquer sintoma da incidência do mal-das-folhas nas observações visuais feitas ao nível de campo, o que também explica o bom desempenho vegetativo.

Tabela 3 – Valores médios para os caracteres de floração (Flo), produção de frutos (NFS, NFV, NFP, NFR), incidência de doenças (VVE, VVA) e vigor vegetativo (DTR) dos clones de cacaueiro utilizados no consórcio. UDSAF - Cacau x Seringueira, CEPEC, 2002.

Caráter

Clone

Média

CP 02

CP-40

CP-47

CP-54

PR-13

PR-27

PR-39

PR-45

PR-51

PR-55

PR-70

PR-71

PR-84

PR-85

FLO

0,09

0,18

0,34

0,49

0,44

0,33

0,42

0,27

0,27

0,34

0,45

0,30

0,49

0,48

0,35

NFS

0,03

0,10

0,49

0,20

0,21

0,21

0,60

0,05

0,13

0,10

0,43

0,30

2,55

0,58

0,48

NFV

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,06

0,00

0,01

NFP

0,00

0,00

0,01

0,00

0,01

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,02

0,00

0,00

NFR

0,00

0,00

0,01

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

VVE

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,00

0,01

0,00

0,00

VAL

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

DTR

3,18

3,57

4,56

4,24

2,87

3,65

4,14

3,37

2,66

4,04

4,54

4,13

3,87

4,01

3,74

Flo - % de plantas floridas por clone; NFS - nº de frutos sadios; NFV - nº de frutos c/ vassoura; NFP - nº de frutos c/ podridão; NFR - nº de frutos roídos; VVE - nº de vassouras vegetativas; VAL-nº de vassouras de almofada e DTR – diâmetro do tronco no esgalhamento.

Considerações Finais

Os dois consortes principais têm mostrado, até então, um desenvolvimento vegetativo bastante satisfatório dado à combinação de espaçamentos mais apropriados e ao manejo adotado para a viabilização do consórcio. Os dados de crescimento, produção e incidência de doenças, ainda que preliminares, apontam para uma redução do período de maturidade de ambos os cultivos. A floração dos cacaueiros já evidencia um sincronismo entre os clones testados. As produções médias dos cacaueiros observadas são fortes indicadoras de que a utilização correta de clones de cacau, dentro de arranjos planejados, proporcionará um nível de produção econômica bastante atrativo.

Referências Bibliográficas

ALVIM, R. 1989. O cacaueiro (Theobroma cacao L.) em sistemas agrossilviculturais. Agrotrópica 1(2): 89-103.
GONÇALVES, P. de S. e ROSSETTI, A.G. 1982. Resultados preliminares do comportamento de clones de seringueira em Manaus. Pesq. Agropec. Bras., Brasília, 17 (1):99-102.
MARQUES, J.R.B. e MONTEIRO, W. R. 1997. Novo enfoque sobre o cultivo da seringueira no estado da Bahia. In: 22° Semana do Fazendeiro em Uruçuca-Ba, Agenda, Ilhéus-Ba, CEPLAC.

José R. Bonadie Marques
Wilson Reis Monteiro
Uilson Vanderlei Lopes
CEPLAC/Centro de Pesquisas do Cacau - Cepec, 45.600-000. Caixa Postal 07, Itabuna, Bahia, Brasil. e-mail: bonadie@cepec.gov.br, monteiro@cepec.gov.br, uilson@cepec.gov.br