ALTERNATIVAS PARA DIVERSIFICAÇÃO AGROECONÔMICA DA REGIÃO SUDESTE DA BAHIA

 

O Brasil possui o terceiro maior rebanho leiteiro do mundo, mas em conseqüência da baixa produtividade ocupa uma posição modesta em relação  a produção mundial de leite.  A produção média atual de leite no Brasil é de 801 kg/vaca ordenhada, enquanto na Bahia é de 482 kg e na região sudeste da Bahia é de 582 kg.

Potencialmente, os pastos tropicais são capazes de promover produção de até 12 Kg de leite/vaca/dia, sem suplementação.  Porém para produções mais elevadas e persistentes, e durante os períodos secos ou de baixo crescimento das forrageiras torna-se necessário o fornecimento de ferragem conservada de alto valor nutritivo  além de rações concentradas.  Entretanto, o uso de rações comerciais na alimentação do rebanho leiteiro é a prática que mais onera o custo de produção de leite.  Portanto, esse sistema de alimentação com o uso de concentrados deve ser economicamente competitivo, como acontece na América do Norte, em Israel e em alguns países europeus.

Em 1984, foi implantado na  Estação de Zootecnia de Itajú do Colônia (EZICO), Itajú do Colônia-BA, em área pertencente a CEPLAC/CEPEC, um Sistema de Produção de Leite, com o objetivo específico de avaliar os efeitos interativos das tecnologias disponíveis, sobre a produção, produtividade economicamente da exploração leiteira e que fosse utilizável por pequenos e médios produtores da região em estudo.

DESCRIÇÃO DA ÁREA

A estação experimental possui uma área total de 100 hectares, dos quais 66,5 ha são ocupados pelo sistema de produção.  O solo predominante é o tipo molisol, moderadamente drenado, fertilidade e profundidade mediana.  A precipitação média anual observada no período de 1974-1990 foi de 1015,8 mm, apresentado um período seco ou pouco chuvoso de junho a setembro. No período de 1993/95, a precipitação média anual foi de 782,9 mm. A temperatura média da localidade é de 23,5ºC.  Atualmente, a área total destinada ao Sistema de Produção está assim distribuída:

64,14 ha de pastagem formada pelos capins sempre verde e colonião (Panicum maximum Jac.);

1,40 ha de cana-de-açucar (Sacca-rum officinarum  L.);

1,00 ha de capim elefante (Pennise-tum Purpureum Schum.).

RESUMO DA TECNOLOGIA USADA

O rebanho do Sistema de Produção de Leite é formado de animais mestiços holandês-zebu (HZ), com grau de sangue variando de ¼ a 15/16 HZ com predominância de ¾ HZ.

As pastagens são formadas predominantemente pelos capins sempre-verde e colonião, utiliza-se o pastejo rotacionado sendo as áreas mais próximas ao curral destinadas as vacas em lactação. Todos os piquetes são dotados de cocho saleiro e bebedouro.

Durante o período de escassez de forragem, os animais, principalmente as vacas em lactação, recebem uma alimentação suplementar tendo como base silagem de capim-elefante, capim-elefante picado, cana-de-açúcar com 1% da mistura uréia/sulfato de amônia (9.1).

As vacas em lactação, durante o período seco, com produção acima de 8 kg de leite recebem 1,0 kg de farelo de trigo, fornecido por ocasião de ordenha.

Em anos anteriores a 1993, os bezerros, após mamarem o colostro por uma semana, eram separados das mães, colocados em piquetes próximos ao curral e aleitados artificialmente em balde, até a idade de 56 dias,  recebendo diariamente 3 kg de leite/ bezerro de uma só vez.  Nos próprios piquetes em cocho coberto, os bezerros recebiam 1 kg de farelo de trigo/cab/dia, além de terem à sua disposição suplemento mineral.  A partir de 1993, parte dos bezerros foi retirada do aleitamento artificial e passaram a ter mamadas em um teto em rodízio por ocasião das ordenhas, mantendo-se o restante do manejo alimentar.  Ao  atingirem120 dias de idade, os animais passam a mamar apenas o leite residual, continuam com acesso ao pastejo e a suplementação com farelo de trigo, até desmama que ocorre, de acordo com o  período de lactação da vaca, geralmente aos sete e oito meses. A adoção do aleitamento direto conforme descrito, melhorou sensivelmente a taxa de crescimento dos bezerros passando a ser o único manejo a ser adotado no sistema.

Os machos são descartados ao atingirem a idade de 10 a 12 meses e as novilhas são recriadas em pastagem especifica e inseminadas ao atingirem o peso de 330 kg.

O método de reprodução é a inseminação artificial, sem estação de monta definida, utilizando sêmen de reprodutores provados.  As fêmeas até 3/4HZ são inseminadas com sêmen de reprodutor holandês e as fêmeas com grau de sangue acima de ¾ HZ, inseminadas com sêmen de reprodutor gir.  Com esse procedimento obtém-se sempre animais próximos a ½ sangue HZ.

A detectação de cios é feita com uso de rufião, associada a observações no comportamento dos animais. Animais com 5/8 de sangue holandês apresentaram melhor produção por lactação com 2872 kg e período  de lactação de 284 dias.

A ordenha é manual,  fazendo-se a segunda ordenha somente para vacas com produção acima de 7 kg de leite e quando a produção da segunda ordenha for acima de 30 % da produção obtida na primeira. O controle leiteiro é efetuado nos dias 10, 20 e 30 de cada mês.  Para as vacas gestantes, em lactação realiza-se a secagem 60 dias antes do parto ou quando a produção de leite/dia for inferior a metade da média geral do rebanho ou sempre que for inferior a 3 kg, baseando-se em dois controle leiteiros consecutivos.

A saúde dos animais é mantida por meio de vacinações do rebanho contra as principais doenças, de limpeza e desinfecção das instalações, corte e desinfecção do umbigo dos bezerros logo após o nascimento, controle  de endo e ectoparasitos, teste de mastite diário por ocasião de ordenha, lavagem e desinfecção do úbere.  Além do controle do Zootécnico, também é mantido um rigoroso controle contábil para avaliação econômica das tecnologias preconizadas, assim como servir de base para comparação com outros sistemas.


RESULTADOS OBTIDOS

Ao longo de onze anos de execução,os resultados alcançados permitem concluir que a tecnologia aplicada no sistema, apesar de simples e envolvendo poucos investimentos, pode aumentar a produção de leite o desempenho reprodutivo do rebanho.  Apesar dos longos períodos de estiagem ocorridos nos últimos anos, os índices técnicos de desempenho obtidos nos períodos estudados foram bastante satisfatórios, conforme se pode ver no quadro 1.  A análise destes dados permitem fazer os seguintes destaques:

  • A produção média de 2.669 kg de leite/vaca/ano alcançada pelo sistema é pelo menos quatro vezes superior à produção  regional e três vezes superior à produção nacional.

  • A produção média de 8,1 kg de leite/vaca/ dia obtida  no sistema, para um período de lactação médio de 242 dias, é muito superior a média do  rebanho regional que é estimado em 2,7 kg/kg/dia.

  • A produtividade média de 2.497 kg de leite/há/ano (período de 1992/95), em regime de pasto, sem fazer uso de concentrado supera em muito a média nacional, que de uma maneira geral é inferior a 1.000 kg/há/ano.

  • O intervalo entre partos (IP) de 13,84 meses alcançado pelo sistema, pode ser considerado muito bom, quando comparado com aquele índice (IP=12 meses) e com o  nacional que é estimado em 18 meses.

A taxa de natalidade de 81,7% obtida pelo sistema pode ser considerado boa quando comparada com os índices encontrados na região.

Por outro lado, apesar dos bons resultados, alcançados com o sistema, a capacidade de suporte das pastagens pode melhorar bastante, o que será feito através da adoção de técnicas de manejo intensivo da pastagem, com a utilização de pastejo rotacionado e de adubação e da conservação de forragem através do processo de ensilagem para utilização no período seco. Estas providências refletirão certamente no aumento da produtividade em termos de KG de leite/ha assim como na redução de idade de primeira cria.

 

Quadro 1 - Índices Zootécnicos do Sistema de Produção de Gado Leiteiro - 1994/95

Kg de leite/vaca lactação/ano

Médias

1991/941

1992/952

Geral



Kg de leite/vaca/lactação/ano 2.854

2.485

2.669

Kg de leite/vaca/lactação 1.954 1.966

1.960

Kg de leite/ha/ano 1.225 976

1.100

Kg de leite/ha/ano3 - -

-

Kg de leite/vaca lactação/dia 7,82 6,81

7,31

Kg de leite/vaca/lactação/dia 8,09 8,12 8,10
Período de lactação - dias 242 242 242
Intervalo entre partos - mês 13,86 13,81 13,83
Taxa de natalidade - % 83,00 80,39 81,39

1. Produção relativa a 4 tetas;
2. Produção relativa a 3 tetas:
3. Considerando área de pastagem destinada às vacas em lactação.

 

Quadro 2 - Margens de ganho observadas no sistema

Produção Média 220 litros/dia
Custo Operacional R$ 0,14/litro
Margem Bruta R$ 1.037,80/mês
Margem Líquida R$ 874,50/mês
Taxa mensal de Retorno 0,57%