TERRITÓRIOS RURAIS COMO UNIDADE DE PLANEJAMENTO
DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Introdução
O enfoque territorial é uma estratégia essencialmente integradora de espaços,
atores sociais, agentes, mercados e políticas públicas de intervenção, e tem na
equidade, no respeito à diversidade, na solidariedade, na justiça social, no
sentimento de pertencimento, na valorização da cultura local e na inclusão
social, as bases fundamentais para conquista da cidadania.
O objetivo dessa construção, que só se concretiza mediante amplo processo
democrático, é identificar e conceber os territórios a partir da composição de
identidades regionais como elemento aglutinador e promotor do desenvolvimento
rural sustentável.
Realça-se como desafios dessa estratégia, a promoção e apoio ao processo de
desenvolvimento de competências humanas e institucionais nos espaços concebidos
como territórios, articulando a construção e implementação de políticas públicas
através da elaboração participativa de Planos de Desenvolvimento Territoriais
Sustentável, tendo como enfoque o fortalecimento das comunidades rurais, com
ênfase à agricultura familiar.
A adoção da abordagem territorial como referência conceitual nos processos de
desenvolvimento rural sustentável constitui premissa fundamental para a
concepção desse espaço enquanto unidade de planejamento, bem como do seu
reconhecimento como instrumento de descentralização e de autogestão de políticas
públicas.
Conceito de Território
Várias são as concepções existentes. A assimilação que os atores do
desenvolvimento territorial na Bahia possuem deste conceito levam a compreensão
de território como a área geográfica de atuação de um projeto
político-institucional, que se constrói a partir da articulação de instituições
em torno de objetivos e métodos de desenvolvimento comuns. Partindo-se deste
entendimento político, desenvolvem-se projetos produtivos, sociais, culturais e
ambientais, normalmente orientados ou liderados por um projeto dominante ou
idéia-guia.
O território, enquanto espaço socialmente organizado, configura-se no ambiente
político institucional onde se mobilizam os atores regionais em prol do seu
projeto (ou seus projetos, mesmo que encerrem conflitos de interesses) de
desenvolvimento. O principal objetivo é a geração de relações de cooperação
positivas e transformadoras do tecido social.
(ROCHA; SCHEFLER e COUTO, 2004)
Teritório e Territorialidade
A discussão acerca de território começa com as acepções do termo. Originário do
latim territorium, adjetivo derivado de territorialis que significa pedaço de
terra apropriada, este sentido era-lhe atribuído antes do século XVIII. Nos anos
1920, os termos território e territorialidade transferem-se do domínio
político-administrativo para o da etologia, adquirindo status de conceito
científico, deixando de ser uma qualidade jurídica para transformar-se num
sistema de comportamento dos animais. No campo da etologia, o território está
associado à demarcação e dominação de lugar, à extensão e limites, enquanto
territorialidade é definida como a conduta de um organismo para tomar posse de
seu território e defender-se contra os membros de sua própria espécie. Em
geografia, Milton Santos refere-se ao território, como sendo “(...) o chão da
população, isto é sua identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que
nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas
materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ele influi.” (SANTOS, 2000, p.
96).
Um Espaço de Planejamento do Desenvolvimento Rural
Busca-se um consenso em que o Estado deve ser gerido como um espaço público,
onde a participação da sociedade seja um instrumento básico de decisão sobre os
rumos e prioridades do desenvolvimento. A democratização dos órgãos públicos, a
transparência administrativa, a participação popular nos conselhos, câmaras e
nos orçamentos são elementos balizadores do planejamento territorial.
Na análise de Sepúlveda (2003), in (SEI, 2004) o território surge como foco do
desenvolvimento rural sustentável. Parte-se de um conjunto de aspectos
diagnosticáveis do território que compreendem: a) as características da economia
rural da região; b) a heterogeneidade espacial e socioeconômica do setor rural;
c) a diversidade institucional e política dos espaços locais; d) a variedade de
oportunidades e possibilidades regionais; e) as diferenças ecológicas entre as
unidades territoriais; f) as interligações entre essas unidades e o restante da
economia. Deriva dessa compreensão, a formulação de políticas que garantam o
desenvolvimento e corrijam as desigualdades rurais. Além da coesão social, o
desenvolvimento rural prescinde da coesão territorial, ressaltam (Rocha;
Schefler e Couto, 2004)
Sepúlveda aponta ainda o caráter institucional-multidisciplinar do
desenvolvimento territorial. Este se revela importante na definição e condução
das políticas públicas territoriais, que devem conter objetivos múltiplos e
promover um sistema participativo de base. O enfoque territorial para o
desenvolvimento apresenta uma nova concepção onde os aspectos ambiental,
econômico, social, histórico-cultural, político e institucional interagem no
espaço do território. A economia rural não é mais puramente agrícola, e, sim
compreende o conjunto de atividades agrícolas e não-agrícolas regionais e dos
recursos naturais da região (SEPÚLVEDA, 2003).
Abramovay (2001b e 2003) sugere que o território possui, antes de tudo, um
tecido social, com relações de bases históricas e políticas que vão além da
análise econômica. À dimensão territorial do desenvolvimento somam-se as já
estudadas dimensões temporais (ciclos econômicos) e setoriais (a exemplo dos
complexos agroindustriais). Citando os estudos de Casarotto Filho e Pires
(1998), o autor lembra que a formação de um território – ou pacto territorial –
deve responder a cinco pré-requisitos: 1) mobilizar os atores em torno de uma
idéia-guia; 2) contar com o apoio desses atores, não apenas na execução, mas na
própria elaboração do projeto; 3) definir um projeto orientado ao
desenvolvimento das atividades de um território; 4) realizar o projeto em um
tempo definido; e 5) criar uma entidade gerenciadora que expresse a unidade
entre os protagonistas do pacto territorial.
Uma estratégia para o planejamento de desenvolvimento territorial sustentável
deve está fundada num processo de implantação e consolidação de metodologias que
se completa em dois momentos: um de apoio à auto-organização, formação dos
fóruns e planejamento dos territórios; e outro de desenvolvimento das
capacidades territoriais e articulação interinstitucional de políticas públicas.
Diagrama da Construção Sistêmica do Desenvolvimento Territorial

Territórios Baianos
Enquanto estratégia do Governo Federal para fortalecimento do Campo brasileiro,
a Secretaria de Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento
Agrário (SDT/MDA) animou um processo de divisão da Bahia, com a participação do
Governo do Estado, organizações sociais e outras instituições, em 23 potenciais
territórios rurais. Desses, seis situados na área de atuação da CEPLAC.
Paralelamente ao trabalho da SDT, a Organização das Nações Unidas para
Agricultura e Alimentação (FAO) firmou três Projetos de Cooperação Técnica (TCP)
com o Governo Federal, visando apoiar a implementação do Programa Fome Zero (PFZ).
A junção das experiências avaliadas como replicáveis, permitiu à FAO montar uma
metodologia de desenvolvimento territorial, que se assemelha à da SDT. Da mesma
forma, outras instituições, governamentais e não-governamentais, têm trabalhado
com metodologias semelhantes para o desenvolvimento territorial.

Essas metodologias foram discutidas no âmbito da
Coordenação Estadual dos Territórios da Bahia (CET) com o objetivo de se montar
uma metodologia de referência para o desenvolvimento de territórios rurais, que
deve ser usada pelos outros parceiros dos territórios. Explicando: além dos
territórios apoiados pela SDT, outros territórios estão sendo ou serão apoiados
por instituições parceiras, que precisam de uma metodologia para implementar as
ações. É o caso do projeto FAO/MDA (UTF/BRA/057) que vem implementando essa
metodologia de referência no território do Sertão do São Francisco. Da mesma
forma a CEPLAC vem utilizando dessa metodologia nos territórios de Itapetinga,
Médio Rio das Contas, Vale do Jiquiriçá e Extremo Sul. Outras instituições como
CODEVASF, Governo da Bahia, Banco do Nordeste e DNOCS têm sinalizado com a
intenção de usar essa metodologia em outros territórios baianos.
Para se atingir o desenvolvimento almejado, tem-se trabalhado duas linhas
estratégicas de atuação: a linha política, que deve ser entendida como ação-meio
para alcance do desenvolvimento, e a linha técnica, que é a ação-fim.
Na linha política, deve-se buscar a articulação e o entendimento das
instituições locais e outras externas ao território em torno de objetivos e
métodos comuns de desenvolvimento. Espera-se que a concertação institucional
permita que (1) seja formado um fórum para defender politicamente o
desenvolvimento do território e que (2) se definam responsabilidades para as
instituições envolvidas, considerando-se suas competências e áreas de atuação.
Estas responsabilidades devem estar colocadas em um Plano de Desenvolvimento
Territorial Sustentável (PDST).
Na linha técnica, devem-se estimular três processos: diagnósticos participativos
nas comunidades; capacitação dos assentados da reforma agrária, agricultores
familiares e de outras categorias fragilizadas, nas áreas temáticas de maior
demanda identificadas nos diagnósticos; e elaboração, implementação e
acompanhamento de projetos pilotos, de apoio à capacitação (aprender fazendo) e
que possam ser replicados a partir das decisões do fórum.
Quadro Resumo da Metodologia de Referência
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Atividades |
Executor |
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Linha Política |
1 |
Organização de oficina preparatória para formação do Fórum territorial, formação do Fórum, organização das reuniões do Fórum, elaboração do Plano de Desenvolvimento Sustentável Territorial (PDST). |
Instituição Animadora, contratada por dois anos |
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2 |
Animação do Fórum, elaboração de pautas e atas, apoio na elaboração do PDST |
Consultor Mediador, contratado por dois anos |
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Linha Técnica |
3 |
Diagnóstico + capacitação/ projetos pilotos
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De duas a oito Instituições Executoras, contratadas por dois anos. |
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4 |
Diagnóstico gerado com dados secundários e identificação, caracterização e classificação das experiências existentes
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Instituição de Pesquisa, contratada por cinco meses |
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Quadro dos Territórios situados na área de atuação da CEPLAC na Bahia
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Território |
Municípios |
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5. |
Sul Composto de 24 municípios: Itabuna, Ilhéus, Buerarema, Itajuípe, Ibicaraí, Itapé, Barro Preto, Almadina, Coaraci, Uruçuca, Una, Itacaré, Aurelino Leal, São José da Vitória, Itapitanga, Arataca, Camacan, Mascote, Pau Brasil, Canavieiras, Santa Luzia, Jussarí, Floresta Azul, Ubaitaba |
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6.
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Baixo Sul Composto por 15 municípios: Presidente Tancredo Neves, Valença, Cairu, Taperoá, Teolândia, Wenceslau Guimarães, Nilo Peçanha, Gandu, Nova Ibiá, Piraí do Norte, Ituberá, Igrapiúna, Ibirapitanga, Camamu, Maraú
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7. |
Extremo Sul Composto de 21 municípios: Itapebí, Itagimirim, Santa Cruz de Cabrália, Eunápolis, Jucuruçu, Porto Seguro, Itabela, Itamarajú, Itanhém, Prado, Vereda, Medeiros Neto, Teixeira de Freitas, Alcobaça, Lagedão, Caravelas, Nova Viçosa, Ibirapuã, Mucuri, Guaratinga, Belmonte |
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8. |
Itapetinga Composto por 12 municípios: Caatiba, Firmino Alves, Itaju do Colônia, Itambé, Itapetinga, Itarantim, Itororó, Macarani, Maiquinique, Nova Canaã, Potiraguá, Santa Cruz da Vitória |
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9.
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Vale do Jiquiriçá Composto por 20 municípios: Amargosa, Jaguaquara, Laje, Nova Itarana, Planaltino, Cravolândia, Brejões, Elísio Medrado, Irajuba, Itiruçú, Jiquiriçá, Lafaiete Coutinho, Lagedo do Tabocal, Maracás, Milagres, Mutuípe, Santa Inês, São Miguel das Matas, Ubaíra, Itaquara |
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22. |
Médio Rio das Contas Composto por 12 municípios: Jequié, Manoel Vitorino, Boa Nova, Dário Meira, Itagiba, Itagí, Aiquara, Jitaúna, Barra do Rocha, Ibirataia, Ipiaú, Apuarema |

Desafios
O plano plurianual da CEPLAC para 2005/2007, consideradas as dimensões
econômicas, sociais e ambientais no contexto da territorialidade de sua atuação,
indicou trabalhar ações capazes de promover a “Inclusão social e redução das
desigualdades sociais” e o “Crescimento com geração de emprego e renda,
ambientalmente sustentável com redução das desigualdades”, Mega-Objetivos
Estratégicos do Projeto BRASIL DE TODOS, do Governo Federal.
Para tanto a intervenção institucional nos seus territórios se dará mediante os
seguintes desafios:
o Incorporar a Visão do Desenvolvimento
Territorial
o Implementar metodologia que viabilize captar demandas dos diferentes segmentos
da população rural, em especial, da Agricultura Familiar;
o Propiciar a participação efetiva das comunidades na definição e implementação
das políticas públicas
o Fortalecer a organização social e da produção numa perspectiva Integral e, de
Cadeias Produtivas
REFERÊNCIAS
ABRAMOVAY, Ricardo. Ruralidade e desenvolvimento territorial. Gazeta
Mercantil, São Paulo, p. A-3, 15 abr. 2001a.
ABRAMOVAY, Ricardo. Sete desafios para o desenvolvimento territorial. Disponível
em: www.banf.org.br. Acesso em: 04 set. 2005.
COMISSÃO EXECUTIVA DO PLANO DA LAVOURA CACAUEIRA – CEPLAC. Diretrizes para a
Programação 2005. Ilhéus:CEPLAC/SUBES, 2004, 23p.
COUTO FILHO, Vitor Athayde; SILVA Dr. Jeová Torres e GAVÍNIA Lydda. (Org.).
Desenvolvimento Territorial na Bahia: (Cartilha/CD/DVD). 2005
ROCHA, Alynson dos S. ; SCHEFLER, Maria de L. M. e COUTO, Vitor de Athayde.
Organização Social e Desenvolvimento Territorial: reflexos sobre a experiência
dos CMDRS na região de Irecê – Ba. In SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E
SOCIAIS DA BAHIA. Análise Territorial da Bahia Rural. Salvador: SEI, 2004, 222p.
(série estudos e pesquisas, 71)
SABOURIN, Eric. Planejamento municipal. Brasília: Embrapa, 1999, 124p.
SANTOS, Milton. Território e sociedade: entrevista com Milton Santos. São Paulo:
Fundação Perseu Abramo, 2000.
SEPÚLVEDA, Sérgio. Desarrollo rural sostenible: enfoque territorial. [19—?].
SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA. Análise Territorial
da Bahia Rural. Salvador: SEI, 2004, 222p. (série estudos e pesquisas, 71)
*Msc em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente
Chefe do Centro de Extensão da CEPLAC
Elieser Barros Correia*