MANEJO E CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA NA REGIÃO CACAUEIRA DA BAHIA ASPECTOS BÁSICOS



Reflexão Inicial

A relação que existe entre solo e planta é de completa dependência um do outro. O solo serve para dar sustentação às plantas e funciona como um reservatório de água e nutrientes necessários para a vida das plantas. Por outro lado, as plantas promovem a cobertura do solo e fornecem matéria orgânica que é importante para a formação e conservação do solo.


O solo é composto por pequenos espaços vazios, chamados de poros. Os poros de tamanho maiores são conhecidos como macroporos e os de menor tamanho, de microporos. Eles desempenham funções específicas no solo, os microporos servem para armazenar água, enquanto que os macroporos são responsáveis pela drenagem da água, pela entrada e saída dos gases no solo e pela penetração das raízes das plantas.


Assim sendo, é de extrema importância que as técnicas adotadas para o cultivo de plantas não promovam a alteração na porosidade do solo. No entanto, sempre ocorrem mudanças, a mais comum é o aumento da quantidade de microporos e a diminuição de macroporos. Com isso, a velocidade de infiltração da água no solo fica mais lenta e a água passa a se acumular na superfície, provocando o escoamento que é conhecido como enxurrada. Esse escoamento superficial é um importante fator que provoca erosão.


A erosão é o processo de desgaste acelerado do solo, provocado pela utilização de técnicas inadequadas para o cultivo. Ela provoca o empobrecimento do solo e a perda da capacidade produtiva com o passar dos tempos. Além disso, ela é responsável por importantes desajustes ambientais. Um deles é o transporte de terra para dentro dos rios que, muitas vezes, provoca a sua morte. Outro impacto importante é a poluição dos mananciais, que compromete a qualidade da água para consumo humano e animal.

Conservação do Solo e da Água

O solo é um recurso natural que deve ser utilizado como patrimônio da coletividade, independente do seu uso ou posse. É um dos componentes vitais do meio ambiente e constitui o substrato natural para o desenvolvimento das plantas.


A ciência da conservação do solo e da água preconiza um conjunto de medidas, objetivando a manutenção ou recuperação das condições físicas, químicas e biológicas do solo, estabelecendo critérios para o uso e manejo das terras, de forma a não comprometer sua capacidade produtiva. Estas medidas visam proteger o solo, prevenindo-o dos efeitos danosos da erosão aumentando a disponibilidade de água, de nutrientes e da atividade biológica do solo, criando condições adequadas ao desenvolvimento das plantas.


Do ponto de vista da conservação do solo, a ocorrência de chuvas fortes em uma determinada região é preocupante, pois essas chuvas têm um alto potencial de desgaste dos solos. Na região cacaueira da Bahia é muito comum a ocorrência de chuvas intensas, donde se pode concluir que é uma região que pode ocorrer erosão, dependendo apenas do tipo de uso do solo. O impacto das gotas das chuvas fortes sobre a superfície de um solo sem cobertura vegetal, provoca a separação das partículas de argila, silte e areia. As partículas individualizadas que são transportadas pela água para dentro do solo, estacionam no interior dos macroporos e provocam o entupimento. Como os macroporos são responsáveis pela infiltração da água, começa a ocorrer um acúmulo de água na superfície, resultando em enxurrada e conseqüente erosão. Portanto, as aparentemente inofensivas gotas de chuva são as principais responsáveis pelo desgaste dos solos sem cobertura vegetal.


Diante disso, o agricultor deve se empenhar ao máximo para manter a cobertura vegetal do solo, uma vez que ela amortece o choque das gotas de chuva contra a superfície do solo, diminuindo os riscos de ocorrência de erosão. Essa cobertura pode ser feita por intermédio da preservação das florestas, pelas culturas agrícolas, pelas plantas de cobertura e/ou pela adição de restos de plantações.


Outro componente importante na ocorrência de erosão é a topografia do terreno. Em locais muito declivosos, a possibilidade de ocorrer erosão é muito maior do que em locais mais planos. A região cacaueira da Bahia tem extensas áreas declivosas, as quais são susceptíveis à erosão. O declive acentuado favorece a uma maior velocidade de escoamento das águas e conseqüente aumento da capacidade de transporte de terras para as partes mais baixas do relevo.


Nesse contexto, pode-se afirmar que, por apresentar a maior parte das terras ocupadas por sistemas agroflorestais, nos quais o cacau é a cultura de interesse econômico principal, a região cacaueira da Bahia possui uma boa estratégia para evitar a erosão, uma vez que as plantas que compõem o agroecossistema funcionam como amortecedores do choque das gotas de chuva sobre o solo.


No entanto, isso não significa que o cacauicultor possa ficar despreocupado com a erosão. Em visitas freqüentes feitas em diversas fazendas de cacau da região, engenheiros agrônomos que trabalham com manejo e conservação do solo, têm observado a ocorrência de erosão laminar em áreas declivosas. Nessas áreas, a cobertura do solo proporcionada pelo cacau, juntamente com as demais plantas que compõem os sistemas agroflorestais, não é suficiente para evitar a erosão. Desse modo, o cacauicultor deverá introduzir uma técnica de conservação do solo para aumentar a resistência do solo contra a erosão, evitando assim o seu empobrecimento. Faz-se necessário conhecer e adotar algumas técnicas conservacionistas que são eficientes para o controle da erosão.


Nos últimos tempos, a região sul da Bahia passou por uma mudança muito importante no uso de seus solos, em decorrência da crise estabelecida na lavoura cacaueira. A alteração mais significativa foi a substituição da cabruca por áreas de pastagem, de fruteira e de café, entre outros. Essas modificações ocorridas têm gerado preocupações com relação à conservação do solo, pois, até então, os agricultores não viam necessidade de se adotar técnicas conservacionistas, uma vez que a proteção do solo promovida pelo sistema cabruca é mais eficiente do que os outros tipos de usos que surgiram.


As pastagens bem manejadas, nas quais se utilizam o sistema de rotação de pastos, a associação com plantas leguminosas, a calagem e a adubação, contribuem para a conservação dos solos, pois promovem a cobertura dos solos por intermédio das gramíneas e pelo fornecimento de matéria orgânica. No entanto, em boa parte das terras ocupadas por pastagens na região cacaueira, o que se observa é o pastoreio excessivo, no qual, os animais cortam o capim rente à superfície do solo, levando a uma completa degradação dos pastos e deixando o solo exposto à erosão. Para piorar a situação, a técnica mais utilizada no manejo de pastagens degradadas é o uso indiscriminado do fogo.


Com a diversificação dos cultivos ocorrida na região, houve um aumento das áreas ocupadas por fruteiras e café. Como essas plantações naturalmente promovem uma menor cobertura do solo quando comparadas com o sistema cabruca, ocorreu, possivelmente, um aumento das perdas de solo por erosão. Entretanto, essas perdas podem ser minimizadas com a adoção de técnicas eficientes de controle da erosão.

A Queimada e o Solo

Existe uma ilusão de que a terra fica mais fértil depois de queimada. O que ocorre na realidade é que os nutrientes que seriam adicionados aos poucos, ao solo, pela decomposição da matéria orgânica, passam a ficar disponíveis de uma só vez nas cinzas. Com isso, esses nutrientes são levados embora pelas chuvas e o resultado é um solo muito mais pobre do que antes de ser queimado. Além disso, existem diversas recomendações que devem ser seguidas, com o objetivo de se fazer uma queimada controlada. Para isso, os agricultores devem procurar informações nos órgãos especializados.


A natureza demonstra que os ambientes, nos quais a queimada ocorre como um fenômeno natural (provocado por descarga elétrica, por fricção entre corpos), apresentam-se, de modo geral, com solos empobrecidos, com conseqüentes deficiências nutricionais, pH inadequado, altos teores de elementos tóxicos. Dentre as conseqüências negativas advindas da queimada estão: a destruição dos organismos do solo, a queima da matéria orgânica, volatilização de alguns nutrientes, liberação de CO2 para a atmosfera, diminuição da infiltração e retenção de água, aumento da susceptibilidade do solo à erosão, redução da capacidade produtiva dos terrenos e desequilíbrios no meio ambiente. Os efeitos do fogo têm sido mais desastrosos, quando decorrentes de queimadas mal conduzidas e aplicadas continuamente. Tem-se verificado que em áreas prejudicadas pelo fogo, como parte de um manejo deficiente, as culturas revelam queda de produtividade e os pastos diminuem sua capacidade de suporte. Os prejuízos ambientais decorrentes do fogo têm sido mais intensos, destacadamente, em áreas de relevo acidentado e muito inclinado.

Tipos mais Comuns de Erosão

Erosão por Salpicamento: é provocada pelo choque das gotas de chuva contra a superfície do solo descoberto. Com o choque, as partículas do solo ficam separadas umas das outras e entopem os poros. Nas áreas mais declivosas ocorre uma maior quantidade de terra transportada.

Erosão Laminar: é o tipo de erosão mais importante que existe. Na maioria das vezes, o agricultor não percebe a sua ocorrência e quando ela é notada, os estragos já foram feitos. Por isso, é considerada como a mais perigosa das erosões. Esse tipo de erosão se caracteriza por retirar finas camadas ou lâminas de solo, daí o nome laminar. O agricultor deve ficar atento no surgimento de certos sinais de ocorrência dessa erosão, como o aparecimento de raízes e pedras na superfície do solo cultivados com culturas permanentes, como são os casos do cacau, do café e de certas fruteiras.

Erosão em Sulco: é o tipo de erosão que mais chama atenção do homem. Porém, provoca menos desgaste do que a erosão laminar. Locais declivosos e com solo descoberto é favorável a ocorrência desse tipo de erosão.

Erosão em Voçoroca: esse tipo de erosão provoca um grande impacto visual. A sua origem é a erosão em sulco não controlada. É muito cara e difícil de ser controlada. Em áreas de ocorrência de voçoroca fica impossibilitado o uso de máquinas e equipamentos agrícolas.

Planejamento Conservacionista

A solução dos problemas decorrentes da erosão não depende da ação isolada de um produtor. A erosão produz efeitos negativos para o conjunto dos produtores rurais e para as comunidades urbanas. Um plano de uso, manejo e conservação do solo e da água deve contar com o envolvimento efetivo do produtor, do técnico, dos dirigentes e da comunidade.


Dentre os princípios fundamentais do planejamento de uso das terras, destaca-se um maior aproveitamento das águas das chuvas. Evitando-se perdas excessivas por escoamento superficial, podem-se criar condições para que a água pluvial se infiltre no solo. Isto, além de garantir o suprimento de água para as culturas, criações e comunidades, previne a erosão, evita inundações e assoreamento dos rios, assim como abastece os lençóis freáticos que alimentam os cursos de água.
Uma cobertura vegetal adequada assume importância fundamental para a diminuição do impacto das gotas de chuva. Há redução da velocidade das águas que escoam sobre o terreno, possibilitando maior infiltração de água no solo e, diminuição do carreamento das suas partículas.

Principais Técnicas de Conservação do Solo

Práticas Vegetativas

Práticas Edáficas

Práticas Mecânicas

 

 

ü   Florestamento e reflorestamento

ü   Plantas de cobertura

ü   Cobertura morta

ü   Rotação de culturas

ü   Formação e manejo de pastagem

ü   Cultura em faixa

ü   Faixa de bordadura

ü   Quebra vento e bosque sombreador

ü   Cordão vegetativo permanente

ü   Manejo do mato e alternância de capinas

 

 

ü   Cultivo de acordo com a capacidade de uso  da terra

ü   Controle do fogo

ü   Adubação: verde, química, orgânica

ü   Calagem

 

 

ü   Preparo do solo e plantio em nível

ü   Distribuição adequada dos caminhos

ü   Sulcos e camalhões em pastagens

ü   Enleiramento em contorno

ü   Terraceamento

ü   Subsolagem

ü   Irrigação e drenagem

 


Cultivo de acordo com a capacidade de uso
As terras devem ser utilizadas em função da sua aptidão agrícola, que pressupõe a disposição adequada de florestas / reservas, cultivos perenes, cultivos anuais, pastagens etc, racionalizando, assim, o aproveitamento do potencial das áreas e sua conservação.

Plantio em Contorno:
É conhecido também como plantio em curva de nível. Neste método todas as operações de preparo do terreno, balizamento, semeadura e outras, são realizadas em curva de nível. No cultivo em nível ou contorno criam-se obstáculos à descida da enxurrada, diminuindo a velocidade de arraste, e aumentando a infiltração d’água no solo. Este pode ser considerado um dos princípios básicos, constituindo-se em uma das medidas mais eficientes na conservação do solo e da água. Essa técnica não pode ser usada isoladamente, principalmente em locais de topografia acidentada e regiões de chuvas intensas, devendo vir junto com outras técnicas para a maior eficiência conservacionista.


A escolha dos métodos / práticas de prevenção à erosão é feita em função dos aspectos ambientais e sócio-econômicos de cada propriedade e região. Cada prática, aplicada isoladamente, previne o problema de maneira parcial. Para uma prevenção adequada da erosão, faz-se necessária a adoção simultânea de um conjunto de práticas.

Adubação Verde e Plantas de Cobertura
A adubação verde consiste na incorporação de plantas ao solo. Essas plantas são especialmente cultivadas para esse fim e são cortadas na época da floração para serem enterradas. Nessa época é onde ocorre o maior armazenamento de nutrientes nas plantas.


As plantas de cobertura são cultivadas com o objetivo de proteger o solo contra a erosão. Elas não são cortadas, nem incorporadas ao solo, permanecem durante todo o seu ciclo cobrindo-o.


As espécies mais comuns são: feijão-de-porco, mucuna, crotalária, cudzu, amendoim forrageiro, guandu, feijão-de-corda, calopogônio, leucena, entre outras.


Tanto a adubação verde quanto as plantas de cobertura são importantes para a melhoria das propriedades do solo. Os solos ficam mais ricos em nutrientes, especialmente em nitrogênio. Esse enriquecimento ocorre por intermédio da adição de resíduos orgânicos ou pela associação com microorganismos. Com o passar dos anos, aumenta o teor de matéria orgânica nos solos cultivados por essas plantas e melhora as propriedades físicas, como a infiltração e armazenamento de água, entrada e saída de gases no solo e penetração das raízes das plantas. Além disso, essas plantas podem controlar as ervas daninhas e alguns tipos de pragas e doenças. Antes de adotar essas técnicas, o agricultor deve se informar com os órgãos oficiais para saber quais as espécies mais indicadas para a região, a disponibilidade de sementes e o hábito de crescimento dessas plantas.

Cordão de Vegetação Permanente
São plantas cultivadas em fileira (cordão), dispostas em curva de nível, com uma largura aproximada de um a dois metros. É uma técnica eficiente no controle de erosão em áreas declivosas. As plantas utilizadas no cordão devem ter um retorno econômico para o agricultor. As espécies mais utilizadas são cana-de-açúcar, capim elefante, capim santo, capim colonião, entre outras. A depender do grau e do comprimento do declive, o agricultor pode plantar mais de um cordão na sua área.

Cobertura Morta:
São restos de vegetais utilizados para cobrir o solo e evitar a ocorrência de erosão. Essa técnica evita a perda excessiva de água do solo mediante a evaporação. O exemplo mais conhecido na região é o do cacau “bate folha”. Outro bom exemplo de cobertura morta é o das folhas cortadas das bananeiras.

Palavras Finais

A história da humanidade está intimamente ligada à história de uso da terra. A conservação do solo e da água mantém a riqueza (capacidade produtiva) das terras, melhora o rendimento das culturas e garante um ambiente equilibrado, para a atual e as futuras gerações. Os agricultores, como protagonistas desta história, têm um papel fundamental na construção de uma vida saudável.
 

Quintino Reis de Araújo1 e Arlicélio Paiva2
1 CEPLAC / Centro de Pesquisa do Cacau. quintino@cepec.gov.br
2 UESC / Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais. arli@uesc.br