Produção orgânica de leite na Mata Atlântica


A atividade pecuária sempre foi relegada a áreas com topografia acidentada, solos erodidos ou exauridos por queimadas freqüentes ou super-pastejos. Conseqüentemente à disponibilidade de forragem dessas áreas são muito baixas, apresentando grande incidência de plantas invasoras. Nesse aspecto, se a atividade pecuária desenvolvida nessas condições for fundamentada na produção de corte e leite apenas através das forrageiras que compõem a pastagem, tal atividade estará fadada ao fracasso. Aliado a falta de forragem, que constitui a dieta básica dos animais, o baixo potencial produtivo do rebanho, problemas de sanidade animal, falta de uma política agrícola adequada, preços elevados dos insumos e a mão de obra desqualificada, tornam-se obstáculos muitas vezes intransponíveis para o produtor rural. No entanto, essas dificuldades podem ser revertidas com o uso de tecnologia correta, que altere decisivamente os índices de produtividade, a eficiência do processo e traga retornos financeiros crescentes.


A comunidade cientifica tem contribuído de forma efetiva, desenvolvendo e difundindo novas tecnologias com resultados concretos e positivos no incremento da produtividade. Como exemplo, a seleção de novos materiais genéticos promissores sejam gramíneas ou leguminosas, aliadas às práticas adequadas de manejo de solo e da pastagem, podem elevar os índices produtivos do rebanho nacional. Inegavelmente tornado esse rebanho mais competitivo no mercado internacional. Não se questiona, que é mais econômico produzir leite ou carne a pasto, e que o Brasil, reúne características que propiciam essa atividade, no entanto, é necessário ajustar práticas de manejo de pastagens, suplementação alimentar, manejo reprodutivo e sanitário dos rebanhos, entre outras, e adequá-las à relação custo-benefício da atividade.


As propriedades envolvidas com a produção de leite apresentam de modo geral, uma superlotação animal nas pastagens e conseqüentemente uma baixa disponibilidade de forragem tanto em quantidade como qualidade. Com a super-lotação há também o comprometimento inicialmente da pastagem cultivadas e posteriormente da fertilidade do solo, o que culminará com uma pastagem degradada e invadida por ervas daninhas, muitas dessas tóxicas para o rebanho bovino. Sem alimentação ou alimentação deficiente os animais se tornam subnutridos e conseqüentemente terão baixos índices de eficiência reprodutiva e altas taxas de mortalidade, sem considerar a baixa produtividade, que é na verdade, a maior evidência da ineficiência da exploração em questão.
O clima é entre as condições naturais um dos mais importantes fatores limitantes de produção, e pode ser considerado como o regulador da produção animal ou seu limitador. O stress térmico causa diretamente redução do consumo de alimento e conseqüentemente a redução dos índices produtivos e reprodutivos do rebanho leiteiro, primordialmente os de origem européia.


O ecossistema de tabuleiros costeiros se caracteriza por uma topografia plana com boqueirões em V, água abundante de boa qualidade, precipitação pluviométrica razoável sem estação seca definida, invernos com temperaturas amenas, entretanto, apresenta limitações quanto à fertilidade dos solos. Para a bovinocultura de corte tais condições são consideradas favoráveis, já que esse rebanho, geralmente não é tão exigente as condições climáticas e topográficas. Na bovinocultura de leite, por se tratar de rebanhos muitas vezes com elevado grau de sangue europeu, as condições de clima podem a vir a ser limitantes, nesse aspecto, devesse considerar o cruzamento com animais de maior rusticidade, como é o caso do zebu. De um modo geral as características desse ecossistema são também de relevante importância como fator incrementador de produtividade. Logicamente por se tratar desse tipo de exploração alguns condicionantes deverão inserir no sistema, tais como, áreas de sombra para o rebanho, facilidades no acesso a água, pastejos rotacionados com forrageiras de melhor qualidade, consórcio de gramíneas com leguminosas, suplementação alimentar, manejo sanitário mais criterioso, etc.


Outro aspecto importante a ressaltar seria a forma de favorecer adequados índices produtivos e reprodutivos com o uso mínimo de agentes químicos. A crescente conscientização da sociedade em respeito à preservação ambiental, acompanhada da preocupação com a segurança alimentar dos produtos consumidos, têm conduzido a uma transformação gradual dos sistemas de produção, processamento, comercialização e consumo de alimentos de origem animal. A produção agroecológica ou orgânica em pecuária, baseada principalmente nos princípios de sustentabilidade ambiental, econômica e social, apresenta-se, neste caso, como uma alternativa viável ao sistema convencional utilizado. No Brasil existe uma grande demanda em transformar os sistemas de produção pecuária convencional em sistemas orgânicos, tornado o país potencialmente líder no setor.


Com relação à alimentação do rebanho em um sistema de produção orgânica, o consórcio de gramíneas e leguminosas na pastagem é prática recomendada, garantindo a diversificação de espécies vegetais no ecossistema. Conseqüentemente a produção de leite poderá ser incrementada com introdução de leguminosas nas pastagens e estabelecimento de sistemas silvipastoris nas propriedades, evitando-se assim o uso de adubos químicos e preservando o meio ambiente.


Na produção orgânica de leite a alimentação das vacas deve ser produzida, majoritariamente, sem agrotóxicos (é permitido incluir apenas 15% a 30% de produtos não orgânicos na composição das rações) e a medição dos animais tem que ser natural.


A conversão dos sistemas de manejo convencional tradicional para o orgânico, segundo as literaturas revisadas tem que ser gradual, e no mínimo levaria dois anos. Nos procedimentos técnicos de produção orgânica animal (Tabela 1), se observa que algumas práticas embora não indicadas podem ser usadas nesse período, até o completo estabelecimento do sistema de produção orgânica.


Na produção de leite utilizando leguminosas consorciadas com gramíneas foram observados aumentos na ordem de 20% e 12% na produção de leite de vacas do rebanho comercial da estação da Ceplac, em Itabela-Ba, mantidas em pastejo rotacionado em pastagens de B. dictyoneura consorciada com a cv. Belmonte e em pastagens exclusivas de B. brizantha cv. Marandu e B. decumbens, respectivamente. Lascano (1994) também apresenta resultados similares, onde a inclusão de A. pintoi em pastagens de gramíneas promoveu acréscimos de 17 a 20% na produção de leite. Esses resultados têm variado com o valor nutritivo da leguminosa utilizada no consórcio. Gonzalez et al. (1996), não verificaram efeito da consorciação de capim-estrela africana com D. ovalifolium, mas quando consorciado com A.pintoi obtiveram produções superiores em 1,1 a 1,3 kg de leite/vaca/dia, em relação à pastagem exclusiva (Tabela 2).

 

Tabela 1: Procedimentos técnicos para produção orgânico animal.
 

Procedimentos

Atividades

Recomendados

Restritos

Proibidos

Nutrição e Tratamento veterinário

Auto-suficiência

alimentar orgânica;

forragens frescas,

silagem ou fenação

produzidas na

propriedade ou de

fazendas orgânicas;

 

Aditivos naturais

para ração e silagem

(algas, plantas

medicinais,

aromáticas, soro de

leite, leveduras,

cereais, outros

farelos);

 

Mineralização com

sal marinho;

Suplementos

vitamínicos (óleo de

fígado de peixe e

levedura);

 

Homeopatia,

fitoterapia e

acupuntura;

 

São obrigatórias as

vacinas estabelecidas

por lei, e

recomendadas as

vacinações para  as

doenças mais

comuns a cada

região

Aquisição de 

alimentos não

orgânicos,

equivalente a até 20% do total da matéria seca para animais

monogástricos e 15%para ruminantes;

 

Aditivos, óleos 

essenciais,

suplementos

vitamínicos, 

aminoácidos e sais minerais (de forma

controlada);

 

Agentes etiológicos

dinamizados

(nosódios ou

bioterápicos);

 

Amochamento e castração.

Uso de aditivos,

estimulantes

sintéticos;

 

Promotores de

crescimento;

 

Uréia;

 

Restos de

abatedouros;

 

Aminoácidos

sintéticos;

 

Transferência

de embriões;

 

Descorna e outras

mutilações;

 

Presença de animais

geneticamente

modificados.

Tabela 1: Procedimentos técnicos para produção orgânico animal (continuação).

Procedimentos

Atividades

Recomendados

Restritos

Proibidos

Manejo do rebanho e instalações

Raças animais

adaptadas  à região,

raças rústicas;

 

Aquisição de

matrizes de criadores

orgânicos;

 

Animais de fora

devem ficar

em quarentena;

 

Instalações

adequadas para o

conforto e saúde

dos animais, fácil

acesso à água,

alimentos e

pastagens;

 

Espaço

adequado à

movimentação;

 

Número de animais

por  área não

deve afetar os

padrões de

comportamento;

 

Criações de

preferência em

regime extensivo ou

semi-extensivo, com

abrigos;

 

Monta natural para

Reprodução;

 

Desmame natural.

Raças exóticas não adaptadas;

 

Bezerros podem

adquiridos ser  criadores convencionais até 30 dias;

 

Inseminação artificial sob controle;

 

Separação dos

bezerros por

 barreiras

Raças exóticas não adaptadas;

 

Estabulação

permanente de

animais;

 

Confinamento e

imobilização

prolongados;

 

Instalações fora

dos padrões;

 

Manejo inadequado que

levem animais

ao sofrimento,

 estresse e alterações de comportamento.

Tabela 1: Procedimentos técnicos para produção orgânico animal (continuação).

Procedimentos

Atividades

Recomendados

Restritos

Proibidos

Manejo de Pastagens

Uso de técnicas de

manejo e

conservação de

solo e água;

 

Nutrição das

pastagens de acordo com as

recomendações;

 

Controle de pragas,

doenças e invasoras

das pastagens de

acordo com as

normas;

 

Pastagens mistas de gramíneas,

leguminosas e outras plantas

(diversificação);

 

Pastoreio rotativo

racional, com

divisão de piquetes;

 

Manter solo coberto, evitando pisoteio excessivo;

 

Rodízio de animais

de exigências e

hábitos alimentares

diferenciados

(bovinos, eqüinos,

ovinos, caprinos 

e aves).

Fogo controlado

para limpeza de

pastagens;

 

Pastoreio permanente

sob condições

satisfatórias;

 

Estabelecimento de pastagem em solos encharcados, rasos

ou pedregosos.

Monocultura de

forrageiras;

 

Queimadas regulares;

 

Superlotação de

pastos;

 

Uso de agrotóxicos

e adubação mineral de alta solubilidade

nas pastagens.

Fonte : Arenales, 2001; Darolt, 2002.

Em um sistema silvipastoril a presença de leguminosas arbóreas é importante na retenção de água, ciclagem de nutrientes e na conservação do próprio solo. Bem como ser uma opção forrageira de alimentação para bovinos, principalmente na época de críticas do ano. Entre as leguminosas arbóreas e arbustivas que podem fazer parte da alimentação de ruminantes pode-se fazer menção da Cratylia argentea, Leucaena leucocephala e Gliricidia septium. Estudos realizados na Embrapa Gado de Leite indicaram que a gliricidia e a amoreira foram as forrageiras de maior potencial, seguidas pela leucena e pelas espécies de estilosantes e cratilia (Tabela 3). As espécies avaliadas podem ser utilizada em sistemas silvipastroris, contribuindo para o fornecimento de energia/proteína aos animais (Aroeira et al., 2003). Em Cuba Hernandez et al., (1998) mostram que a produção de leite de um sistema de produção a pasto aumentou em 3.557 L/ha/ano, quando se explorou, na propriedade, um sistema multiestratificado (Gráfico 1).


Na Colômbia, Murgueitio (2000) observou que com o uso de sistema silvipastoril, incrementou na produção de leite de 10.585 para 12.702 L/ha/ano. O teor de matéria orgânica no solo de 1,6% aumentou para 2,6%, simplesmente com a introdução de Prosopis juliflora e Leucaena leucocephala, numa pastagem de capim-estrela (Tabela 4).

 

Tabela 2. Produção de leite em pastagens de capim-estrela africana (Cynodon nlemfuensis) monocultivo e consorciado com Arachis pintoi ou Desmodium ovalifolium
 

Produção

Capim estrela

 

C.estrela + A. pintoi

C.estrela + D. ovalifolium

1990

kg/vaca/dia

7,7b

8,8a

7,6b

kg/ha/dia*

22,3

25,5

22,0

 

1991-1992

 

 

kg/vaca/dia

9,5b

10,9a

9,4b

kg/ha/dia*

22,8

25,9

22,6

* Lotação de 2,9 UA e 2,4 UA 1990 e 1991/92, respectivamente.
Fonte: Gonzalez et al., 1996.


Tabela 3. Teores de matéria seca (MS), fibra me detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA) e proteína (PB) e digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS), de diferentes espécies
 

Espécies

MS

FDN

FDA

Celulose

Lignina

DIVMS

PB

S. guianensis

33,3

54,9

38,4

27,0

10,8

52,5

11,8

G. sepium

24,8

44,8

27,9

16,1

12,2

60,5

19,6

L. leucocephala

24,3

42,6

28,3

16,2

12,7

56,2

28,9

C. argêntea

45,5

59,0

36,6

18,1

16,7

48,3

21,4

M. alba

43,6

45,3

29,6

20,5

6,4

60,0

14,8

Fonte: Aroeira et al. (2003)

Gráfico 1. Incrementos na produção de leite com introdução de espécies
Fonte: Hernandez et al. (1998)


Tabela 4. Indicadores técnicos e ambientais de um sistema silvipastoril (C. plectostachyus + L. leucocepha + Prosopis juliflora) x pastagem de capim-estrela

Indicadores

Capim-estrela +Nitrogênio

Sistema Silvipastoril

Carga animal (vacas/ha)

4,0

4,8

Produção de leite (kg/vaca/dia)

9,5

9,5

Produção de leite (kg/ha)

10.585

12.702

Adubação (uréia) (kg/ha)

400

0

Água consumida (m3/ha/ano

16.000

12.000

Pássaros (nº de espécies)

?

46

Matéria orgânica do solo (0 - 10 cm) (%)

1,6

2,8

Fonte: Murgueitio (2000)

Considerações finais

A agricultura orgânica, incluindo o filão pecuário, registrou em 2002, crescimento de 50%, garantindo uma receita aproximada de R$250 milhões no mesmo período. Os produtos obtidos a partir de uma exploração orgânica deverão ter um valor agregado mais elevado, permitindo a melhor remuneração das unidades produtoras e, conseqüentemente, eliminado a ameaça de má utilização dos recursos naturais existentes.

Maximizar a produção sem causar num prejuízo ao ecossistema é um dos maiores desafios dos estudiosos das mais várias áreas, incluindo na agropecuária. A utilização do consórcio entre leguminosas e gramíneas e a formação de sistemas silvipastoris são alternativas promissoras e que apresentam excelentes resultados No entanto é importante se atentar para a escolha das forrageiras e adequá-las a um manejo que propicie a persistência e auto-sustentabilidade dos sistemas adotados.

É possível produzir leite a partir de um modelo economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto, fundamentado em tecnologias concretas, e que favoreçam a maior integração entre o homem e a natureza.

Referências Bibliográficas

ARENALES, M. C. Produção Orgânica de Carne Bovina. Ed. Centro de Produções Técnicas, 2001.

AROEIRA, L. J.M., CARNEIRO, E.C., PACIULLO, D.S.C., MAURICIO, R.M., ALVIM, M.J., XAVIER, D.F. Composição química, digestibilidade e fracionamento do nitrogênio e dos carboidratos de algumas espécies forrageiras. Pasturas tropicales, Cali, v.25,n.1, p.33-37, 2003.

AROEIRA, L.J.M., PACIULLO, D.S.C. Produção de leite a pasto. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v.25, n.22, pp.56-63, 2004.

DAROLT, M.R. Pecuária Orgânica: procedimentos básicos para um bom manejo da criação. Planeta Orgânico, Seção Trabalhos Disponíveis em: <http:www.planetaorganico.com.Br/daroltpec.htm>. 2002.

HERNANDEZ, D., CARBALLO, M., REYES, F., MENDONZA, C. Explotacción de un sistema sivopastoril multiasociado para la producción de leche. In: TALLER SIVOPASTORIL LOS ÁRBORES Y ARBUSTOS EN LA GANDERIA, 3., 1998, Matanzas. MEMORIAS... Matanzas:EEPF “Hatuey”, 1998. p.214.

GONZALEZ, M.S., NEURKVAN, L.M., ROMERO, F. et al. Producion de leche en pasturas de estrella africana (Cynodon nlemfuensis) solo y associado on Arachis pintoi o Desmodium ovalifolium. Pasturas Tropicales, v.18, n.1, p.2-12, 1996.

LASCANO, C.E. Nutritive value and animal production of forage Arachis. In: KERRIDGE, P.C.; HARDY, B., (eds). Biology and agronomy of forage Arachis. 1994 Cali, Colômbia: CIAT, 1994, p.109-121

MURGUEITIO, E. Sistemas agroflorestales para la producción ganadera en Colômbia. In: POMAREDA C., STEINFELD, H. Intensificación de la ganaderia en Centro America – Beneficios econômicos y ambientales. São José, Costa rica: CATIE/FAO/SIDE. 2000. P. 219-242.

¹ Pesquisadora da Ceplac/Cepec - Km 22 da Rodovia Ilhéus-Itabuna, Caixa Postal 07 – 45600-000 – Itabuna, Bahia.
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Cláudia de Paula Rezende 1