A OBTENÇÃO DE BEZERROS DE BOA QUALIDADE E A
PRODUÇÃO DE LEITE
INTRODUÇÃO
Um sistema de produção de leite, por definição, é aquele cuja principal
finalidade da exploração é a produção de leite. Os bezerros são,
predominantemente, comercializados após a apartação. Portanto, no conjunto das
receitas de uma exploração de Bovinocultura Leiteira, além da venda do leite,
observa-se a importante participação da venda de animais para reprodução
(novilhas excedentes e tourinhos) e para recria, engorda e abate (bezerros,
novilhas e vacas de descarte). É importante salientar que mesmo em um rebanho de
alto nível de especialização leiteira (matrizes puras de raças européias
especializadas), haverá receita com a venda de animais para abate (vacas de
descarte) e que quanto menor for o nível de especialização leiteira do rebanho,
tanto maior será a importância da venda de animais no conjunto de suas receitas.
Há um entendimento comum entre os pecuaristas de corte da Região Sul da Bahia,
compradores de bezerros para recria e engorda, de que os bezerros azebuados,
ditos “bezerros brancos”, procedentes de rebanhos zebuínos comerciais de corte,
comuns nesta região, são muito superiores aos bezerros procedentes de rebanhos
mestiços euro-zebuínos leiteiros, ditos pejorativamente ”bezerros de leite”, “sorados”,
“goelas-secas” ou “gabirus”, os quais são depreciados no mercado e
comercializados com um deságio em torno de 10% a 15%. Diagnósticos de situação
da Pecuária leiteira desta região têm demonstrado que, de fato, os bezerros
produtos desta exploração apresentam alto índice de mortalidade, baixo peso vivo
à apartação, baixa performance na recria e engorda e baixo rendimento de
carcaça. Será que esta situação é imutável? Será que os bezerros procedentes de
rebanhos mestiços euro-zebuínos leiteiros são necessariamente ruins, por uma
condição genética? Ou será que podemos obtê-los com uma boa qualidade,
adotando-se um melhor manejo?
Estes mesmos diagnósticos referidos acima sugerem as prováveis causas principais
para esta situação: falta de higiene, inobservância dos cuidados ao nascimento,
subnutrição, carência mineral, alta infestação de endo e ectoparasitos e
negligência das vacinações.
Acreditamos que com a adoção de um manejo adequado
da reprodução, alimentação e sanidade, podemos mudar esta realidade regional e
produzirmos bezerros de boa qualidade em rebanhos mestiços euro-zebuínos
leiteiros, capazes de agregar receitas importantes à atividade leiteira através
da recria e engorda, caso a propriedade tenha área disponível, ou pela venda
após a apartação a pecuaristas de corte.
Em 1996, foi implementado na Granja Experimental Carlos Brandão (GECAB),
Ilhéus-BA, de propriedade da CEPLAC, um Sistema de Produção de Leite que pudesse
servir de referência a uma parcela considerável de fazendas que exploram a
atividade leiteira ou que tenham bom potencial para fazê-lo, especialmente na
Região Cacaueira Baiana, como alternativa concreta de diversificação
agroeconômica. Neste presente trabalho, este Sistema será apresentado dando-se
ênfase à criação de bezerros, um dos seus aspectos mais fortes.
OBJETIVOS
- Avaliar técnica e economicamente um Sistema de Produção de Leite alternativo
aos tradicionais;
- Auxiliar na indicação de projetos de pesquisa para a solução de problemas
identificados;
- Servir como instrumento de validação e difusão de tecnologias geradas pela
pesquisa;
- Proporcionar o treinamento de técnicos, produtores e mão-de-obra.
CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA
A GECAB possui uma área total de 122 ha, dos quais 87 ha foram ocupados com o
Sistema de Produção, está localizada a 50 m de altitude, 14º45‘15” de latitude
sul e 39º13’59” de longitude oeste, segundo Koppen, o clima é do tipo AF (clima
das florestas tropicais, quente e úmido, sem estação seca definida e com
pluviosidade total superior a 1.300mm/ano). A precipitação média é de 1.741
mm/ano, bem distribuída. A temperatura média é de 23,3ºC. Os solos predominantes
são Alfisois e hidromórficos, num relevo plano e levemente ondulado,
apresentando má drenagem em sua maior parte.
A área total destinada ao Sistema de Produção esteve assim distribuída:
- 86,00 ha de pastagens, predominando Brachiaria arrecta e Brachiaria mutica;
- 0,50 ha de cana-de-açúcar (Saccarum officinarum L.);
- 0,50 ha de capim elefante (Pennisetum purpureum Schum).
RESUMO DA TECNOLOGIA UTILIZADA
O rebanho do Sistema de Produção constitui-se de animais mestiços euro-zebuínos
das raças européias Holandesa e Schwyz e da raça zebuína Gir, com grau de sangue
variando de 1/4 a 3/4 EZ.
A base da alimentação é a forragem produzida nas pastagens, coletada através de
pastejo direto. Às vacas em lactação são destinados os piquetes mais próximos ao
curral sob pastejo rotacionado, demais piquetes são destinados às vacas secas,
bezerros e animais em recria sob pastejo alterno, de acordo com a
disponibilidade de forragem. Todos os piquetes têm acesso a cocho saleiro e
bebedouro. As vacas com produção até 10 kg de leite/dia não recebem concentrado,
acima disso, recebem 1 kg de concentrado para cada 3 kg de leite produzidos
acima deste patamar. As vacas secas e novilhas de recria só recebem ração de
concentrado se houver necessidade. Durante o período de escassez de forragem, os
animais, especialmente as vacas em lactação, recebem uma suplementação volumosa
constituída de capim-elefante picado e/ou cana-de-açúcar picada com 1% da
mistura uréia: sulfato de amônio (9:1).
Ao nascimento, faz-se o corte e desinfecção do cordão umbilical com solução de
iodo a 10% (1.º ao 3.º dia), promove-se a imediata ingestão do colostro,
identifica-se o bezerro com brinco na orelha esquerda com o número de ordem da
matriz e procede-se a sua pesagem, o que também é realizado aos 4 meses e à
apartação. A descorna, com ferro quente, é realizada entre o 15.º e 30.º dia de
vida.
Durante a primeira semana de vida, os bezerros permanecem com a vaca mamando o
colostro à vontade e o excesso é ordenhado duas vezes ao dia (manhã e tarde), a
partir da segunda semana até 120 dias de idade, mamam um teto mais o resíduo dos
outros três tetos por ocasião das ordenhas, após têm acesso à forragem de
piquetes e, em cocho coberto recebem, à vontade, concentrado para bezerros até o
limite de 300 g/cabeça/dia e suplemento mineral. Dos 121 dias até a apartação,
mamam apenas o leite residual por ocasião das ordenhas, após têm acesso à
forragem de piquetes e, em cocho coberto recebem, à vontade, concentrado para
bezerros até o limite de 500 g/cabeça/dia e suplemento mineral.
Os bezerros têm o seguinte esquema de vacinação:
Paratifo – Vacinar vacas no 8.º mês de gestação e bezerros no 15.º dia de
vida.
Febre aftosa – Vacinar em março e setembro.
Brucelose – Vacinar as fêmeas entre 3 e 8 meses de idade.
Clostridioses – Vacinar entre 4 a 6 meses de idade. Reforço após 30 dias.
Raiva – Vacinar entre 4 a 6 meses de idade.
Os bezerros são everminados aos 30 dias de idade e, a partir daí,
bimestralmente, até a apartação.
Os carrapatos são combatidos sistematicamente a intervalos de 15 a 21 dias com
produtos de multiação, que também atuam sobre bernes e moscas do chifre.
Os bezerros são marcados a fogo com o número de ordem e o ferro “CG” da
CEPLAC/GRANJA na perna direita, à apartação, quando são vendidos todos os machos
e fêmeas excedentes.
As novilhas de reposição são recriadas em regime exclusivo de pasto até atingir
o peso vivo de 300 kg, a partir do qual entram em reprodução.
O método de reprodução é a inseminação artificial, sem estação de monta
definida, sem repasse com touro e usando-se sêmen de touros provados. Para
detectar o cio são utilizados rufiões que auxiliam o trabalho dos vaqueiros. As
fêmeas com grau de sangue abaixo de 1/2 EZ são inseminadas com sêmen de touro
Holandês. As fêmeas com grau de sangue acima de 1/2 EZ são inseminadas com sêmen
de touro Gir. As fêmeas com grau de sangue 1/2 EZ são inseminadas com sêmen de
touros das raças Holandesa, Schwyz e Gir (1/3 para cada); entretanto, nos
últimos três anos, utilizamos apenas Schwyz. Com isso conseguimos manter o
padrão zootécnico do rebanho entre 1/4 e 3/4 EZ.
A ordenha é mecânica e realizada duas vezes ao dia (às 06:00 horas e às 14:30
horas) para as vacas com produção igual ou superior a 5 kg no somatório das duas
ordenhas. O controle leiteiro é feito duas vezes ao mês, com intervalo de l5
dias. As vacas gestantes em lactação são secadas 60 dias antes do parto. Vacas
com produção diária de até 2 kg de leite são soltas com suas crias até a
apartação.
O controle sanitário preventivo se inicia desde os cuidados com os recém-
nascidos e continua com um calendário de vacinações e testes para as principais
doenças, controle de endo e ectoparasitos, além de limpeza e desinfecção das
instalações e cuidados de higiene da ordenha.
O controle zootécnico é rigoroso e garantido pela identificação individual de
todo o rebanho.
RESULTADOS ALCANÇADOS
A implantação efetiva do Sistema de Produção foi iniciada a partir de
outubro/95, com uma duração de quatro anos, portanto, encerrando-se em
outubro/99.
Apresentamos, na tabela abaixo, as metas e os resultados alcançados neste
|
Índices Zootécnicos |
Unidade |
Metas |
Resultados |
|
Natalidade |
% |
85 |
76,85 |
|
Mortalidade de 0 a 1 ano |
% |
5 |
< 5 |
|
Mortalidade acima de l ano |
% |
2 |
< 2 |
|
Vacas em lactação |
% |
71 |
64 |
|
Taxa de lotação |
U.A |
2,0 |
1,44 |
|
Produção/vaca/dia |
kg |
10 |
7,8 |
|
Período de lactação |
dia |
300 |
266 |
|
Produção/vaca/lactação |
kg |
3.000 |
2.075 |
|
Produção/ha/ano(vacas lactantes) |
kg |
6.000 |
2.988 |
|
Peso líquido à apartação - M/F |
@ |
7,0/6,0 |
7,0/6,5 |
|
Peso vivo de fêmeas - 12 meses |
kg |
200 |
210 |
|
Peso vivo ao 1.º serviço |
kg |
300 |
308 |
|
Idade ao 1.º serviço |
mês |
18 |
20 |
|
Idade ao 1.º parto |
mês |
27 |
30 |
|
Intervalo entre partos |
mês |
14 |
14,63 |
Em apenas quatro anos de implantação do Sistema de
Produção, foram obtidos expressivos índices de desempenho, comparativamente às
estimativas regional e nacional, em que pese a simplicidade da tecnologia
utilizada e o pequeno investimento necessário:
O índice de natalidade de 76,85% obtido é bom comparando-se ao estimado para a
região em torno de 60%;
A taxa de lotação média anual das pastagens de 1,44 U.A é o dobro da média
regional;
A produção de 7,8 Kg de leite/vaca/dia com um período de lactação de 266 dias
é muito superior à média do rebanho regional, estimada em 2,5 Kg de
leite/vaca/dia com um período de lactação de 210 dias;
A produção de 2.075 kg de leite/vaca/dia é 2,6 vezes superior à média nacional
e 4,2 vezes superior à média regional;
A produtividade de 2.988 kg de leite/ha/ano é muito superior às médias
nacional e regional, inferiores a 1.000 Kg/ha/ano;
O intervalo entre partos de 14,63 meses, próximo à meta preconizada (14
meses), pode ser considerado muito bom, comparando-se com o nacional e o
regional, estimados entre 18 a 20 meses.
Quanto aos resultados diretamente relacionados à criação de bezerros,
destacamos:
Os índices de mortalidade de 0 a 1 ano (< 5%) e acima de 1 ano (< 2%) são
muito bons em relação às estimativas médias regionais de 15 e 5%,
respectivamente;
Os pesos líquidos ao desmame de 7 @ para machos e 6,5 @ para fêmeas são,
respectivamente, 40% e 62,5% superiores às médias regionais;
As idades médias obtidas à 1.ª inseminação (20 meses) e ao 1.º parto (30
meses) são excelentes, comparadas às médias nacionais e regionais, estimadas em
33 e 42 meses, respectivamente.
A análise destes resultados mostra que, com um manejo correto, bezerros
procedentes de rebanhos mestiços euro-zebuínos leiteiros apresentam baixo índice
de mortalidade, excelente peso vivo à apartação e, em função disso, desde que
seja mantido o bom manejo, uma ótima performance na recria e engorda, podendo
superar os bezerros procedentes de rebanhos zebuínos de corte em quesitos como
precocidade e rendimento de carcaça. Com relação às fêmeas, especificamente,
observamos que, por apresentarem uma boa performance nas fases de cria e recria,
atingem mais precocemente o peso vivo ideal para entrada na fase reprodutiva,
reduzindo a idade ao primeiro parto, o que é extremamente vantajoso.
O Sistema ora apresentado foi revisado e aperfeiçoado por seus autores e está
previsto um segundo período de teste de mais quatro anos. A julgar pelo
melhoramento genético animal já obtido, aliado à adoção de técnicas de manejo
intensivo de pastagens, tais como pastejo rotacionado e adubação (até então se
explorou somente a fertilidade natural), além da conservação de forragem através
da ensilagem para suplementação do rebanho nos períodos de escassez, os índices
de desempenho reprodutivo e de produtividade animal e por área melhorarão
significativamente, reduzindo os custos de produção e aumentando a receita
líquida mensal.
Este Sistema de Produção é perfeitamente viável e poderá ser bastante útil à
grande massa de produtores de leite da Região Cacaueira Baiana. A tecnologia
preconizada no Sistema já está sendo implementada por produtores regionais,
demais interessados devem procurar o Serviço de Assistência Técnica ou os
Escritórios Locais do Centro de Extensão da CEPLAC.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Sistemas de Produção para a Pecuária Regional/Áreas Sul e Sudeste da Bahia.
CEPLAC/DEPEX. 1981.
Nascimento, E. C. do. A Bacia Leiteira do Pólo Itabuna. Ilhéus-BA. CEPLAC/DEPEX
(Série Extensão Rural, Nº 3). 1985.
Diagnóstico das Principais Explorações Agropecuárias da Área de Atuação do
Departamento de Extensão. CEPLAC/DEPEX/APLAN. 1989.
Sistema de Produção de Gado Leiteiro. CEPLAC/CEPEC. 1989.
Projeto para o Desenvolvimento da Pecuária na Região Cacaueira do Sul da Bahia.
CEPLAC.1992.
Sistema de Produção de Gado Leiteiro. CEPLAC/CEPEC. 1992.
Sistema de Produção de Gado Leiteiro. CEPLAC/CENEX. 1992.
Sistema de Produção de Gado Leiteiro para o Agrossistema Cacaueiro. CEPLAC/CENEX/NUTEA.
1998.
O Leite a Pasto da Embrapa. Noticiário Tortura. Edição de Setembro/Dezembro.
1998.
Sistema de Produção de Leite com Gado Mestiço a Pasto.CEPLAC/CENEX/NUTEA. 2002.
Eng.º Agr.º, CEPLAC/CENEX/SERAT, Km 22
Rodovia Ilhéus/Itabuna - Ilhéus-BA
E-mail: marcosasousa@ig.com.br
Marcos Almeida Sousa