Sistemas agroflorestais como uso sustentável
dos solos: conceito e classificação
Os Sistemas Agroflorestais (SAF’s) são reconhecidamente modelos de exploração de
solos que mais se aproximam ecologicamente da floresta natural e, por isso,
considerados como importante alternativa de uso sustentado do ecossistema
tropical úmido (Almeida, Müller e Sena-Gomes, 2002; Brandy et al., 1994; Canto
et al., 1992; Huxley, 1983; Nair, 1993; Müller, Sena-Gomes e Almeida, 2002). A
importância da utilização de Sistemas Agroflorestais fica mais evidente, quando
constatamos a existência de extensas áreas improdutivas em conseqüência da
degradação resultante, principalmente, da prática do cultivo itinerante,
reconhecidamente uma modalidade de exploração não sustentável dos solos. A
pecuarização é outra realidade na exploração de terras no Brasil sendo, em
geral, uma atividade resultante da implantação de grandes projetos,
principalmente na Amazônia, mas não somente naquela região, a qual promove a
elevação do índice de desemprego e representa grande risco de degradação
ambiental.
Existe atualmente na literatura uma grande variedade de termos empregados para
conceituar práticas que combinam espécies florestais com culturas agrícolas e/ou
com a pecuária. Também há uma grande confusão no uso da terminologia
agroflorestal no Brasil. Muitos confundem sistemas agroflorestais com
consorciação de cultivos. Resumidamente pode-se dizer que todo SAF é uma
consorciação de cultivos, contudo o inverso nem sempre é verdadeiro.
Na verdade Agrofloresta é um termo novo para uma prática bastante antiga já
utilizada pelos indígenas. King e Chandler (1978) conceituaram os SAF’s como
sendo os “Sistemas sustentáveis de uso da terra que combinam, de maneira
simultânea ou em seqüência, a produção de cultivos agrícolas com plantações de
árvores frutíferas ou florestais e/ou animais, utilizando a mesma unidade de
terra e aplicando técnicas de manejo que são compatíveis com as práticas
culturais da população local”. Este conceito talvez seja o mais adequado para
caracterizar os SAF’s porque faz alusão ao fator sustentabilidade, adotabilidade
e, também, a classificação temporal dos sistemas agroflorestais. Esta definição
implica que: a) SAF envolve normalmente duas ou mais espécies de plantas (ou
plantas e animais), onde pelo menos uma delas é lenhosa; b) SAF tem sempre dois
ou mais produtos e; c) mesmo o mais simples SAF é sempre mais complexo,
ecologicamente (na sua estrutura e função) e economicamente, do que os sistemas
de monocultivos (Nair, 1993).
Existem muitas classificações dos sistemas agroflorestais (Nair, 1993; Dubois et
al., 1997; Montagnini at al., 1992). Baseada nos aspectos estruturais,
funcionais, sócio-econômicos e ecológicos os SAFs podem-se classificar em:
1. Quanto ao aspecto estrutural: a. considerando a natureza dos
componentes: Sistemas Silviagrícolas, Sistemas Silvipastoris, Sistemas
Agrossilvipastoris. À parte “florestal” da palavra agroflorestal não quer dizer
que a espécie arbórea do sistema deva ser uma espécie da floresta ou uma espécie
madeireira. Na Amazônia, por exemplo, muitos desses sistemas têm apenas árvores
frutíferas e cultivos perenes. b. considerando o arranjo dos componentes: quanto
ao arranjo espacial podem ser Sistemas Contínuos, Sistemas Zonais e Sistemas
Mistos; quanto ao arranjo temporal temos Sistemas Seqüenciais e Sistemas
Simultâneos.
2. Quanto a sua função: a. Sistemas Agroflorestais de Produção e; b.
Sistemas agroflorestais de proteção.
3. Quanto ao aspecto sócio-econômico: a. Sistemas Agroflorestais
Comerciais; b. Sistemas Agroflorestais Intermediários e; c. Sistemas
Agroflorestais de Subsistência.
4. Quanto aos aspectos ecológicos: a. considerando a localização
geográfica (Saf trópicos úmidos, Saf planalto central, etc.); b. considerando a
situação topográfica (Saf terra firme, Saf várzea, etc.) e; c. considerando o
cultivo econômico (Saf seringueira, Saf cacau, Saf dendê, etc.).
A sustentabilidade é uma característica inerente aos sistemas agroflorestais,
pois estão alicerçados em princípios básicos que envolvem aspectos ecológicos,
econômicos e sociais. Todo método ou sistema de uso da terra somente será
sustentável se for capaz de manter o seu potencial produtivo também para
gerações futuras. Além disso, os SAF’s para serem considerados sustentáveis
devem envolver os aspectos sociais, econômicos e ecológicos, isto é necessitam
que sejam socialmente justos, economicamente viáveis e ecologicamente corretos.
Função social: Os SAF’s quando implantados em um determinado local ou
região, possuem uma importante função social, a de fixação do homem ao campo
devido principalmente ao aumento da demanda de mão-de-obra e sem sazonalidade,
ou seja, a sua distribuição é mais uniforme durante o ano (os tratos culturais e
colheita ocorrem em épocas diferentes), e da melhoria das condições de vida,
promovida pela diversidade de produção (produtos agrícolas, florestais e
animais). A conservação das espécies arbóreas medicinais e frutíferas, também é
uma importante função social dos SAF’s (Müller et al., 2003 e 2003).
Os sistemas agroflorestais, quando comparados aos monocultivos, geralmente
produzem maior número de serviços e produtos para o consumo humano tendo em
vista, principalmente, a utilização de grande diversidade de espécies florestais
arbóreas e arbustivas, e pelas diferentes alternativas de consorciação com
espécies agrícolas e/ou animais, em uma mesma área de terra.
Função econômica: A alternância da produção ao longo do ano e a
diversificação de produtos conferem aos SAF’s fluxo de caixa mais favorável,
principalmente pelas receitas obtidas com os cultivos intercalares de ciclo
curto; maiores lucros por unidade de área cultivada e maior estabilidade
econômica pela redução dos riscos e incertezas de mercado. Neste caso, a escolha
das espécies utilizadas nos SAF’s deve apoiar-se em um estudo de mercado para
detectar os produtos de maior aceitação e venda em determinadas épocas do ano.
Os sistemas agroflorestais, pela diversidade de culturas necessitando para o seu
manejo uma gama variada de mão-de-obra e, também, pelo fato de a maioria das
culturas perenes utilizadas serem produtoras de matéria prima (madeira, látex,
resinas, gomas, corantes, etc.) ou de alimentos (óleos, palmito, frutas, etc.),
que podem demandar industrialização imediata, geram maiores oportunidades de
emprego no meio rural.
Função ecológica: A característica mais importante dos SAF’s parece ser a
estabilidade ou sustentabilidade ecológica. Esta sustentabilidade resulta da
diversidade biológica promovida pela presença de diferentes espécies vegetais
e/ou animais, que exploram nichos diversificados dentro do sistema. A
multiestratificação diferenciada de grande diversidade de espécies de múltiplos
usos, que exploram os diferentes perfis verticais e horizontais da paisagem nos
SAF’s, otimizam o máximo aproveitamento da energia solar (Macedo, 2000).
Como importância ambiental dos SAF’s pode ser citada: proteção contra erosão e
degradação dos solos, conservação dos remanescentes florestais, conservação das
espécies arbóreas de valor ecológico (proteção e alimentação à fauna, espécies
endêmicas e espécies em extinção), conservação de nascentes e cursos d’água,
substituição das matas ciliares mantendo a função de proteção e, atuação de
corredores ecológicos interligando fragmentos florestais (Müller et al., 2002 e
2003).
Uma das vantagens mais conhecidas da agrofloresta é o seu potencial para
conservar o solo e manter sua fertilidade e produtividade. As espécies arbóreas,
normalmente por possuírem raízes mais longas que exploram maior volume de solo,
são capazes de absorverem nutrientes e água que os cultivos agrícolas não
conseguiriam, uma vez que, geralmente, suas raízes absorventes estão
concentradas na camada superior do solo até 20 cm de profundidade.
O dossel de copas formado pela diversidade de espécies vegetais proporciona
cobertura de solo através da deposição de camada densa de material orgânico,
gerada continuamente pela queda de folhas e ramos das diferentes culturas. Isso
aumenta a proteção do solo contra a erosão, diminui o escorrimento superficial
da água de chuva aumentando o seu tempo de infiltração, reduz a temperatura do
solo, aumenta a quantidade de matéria orgânica e, conseqüentemente, melhora as
suas propriedades químicas, físicas e biológicas.
A Tabela 1 demonstra a importância dos SAFs na função de proteção contra perda
de solo por erosão. Os dados são provenientes de quatro tipos de cobertura do
solo durante a exploração da terra (sem cobertura, cultivo intensivo - mandioca
e milho -, cultivos perenes - SAFs - e floresta nativa) em um Ultisol com 7% de
declividade na Costa do Marfim. Observa-se que a perda de solo nos cultivos
perenes é baixa e praticamente igual à floresta nativa (Tabela 1).
Tabela 1. Perdas de solo por erosão em Ultisol com 7% de declividade na Costa do
Marfim.
Cobertura |
Erosão (t/ha/ano) |
|
Solo exposto (sem vegetação) |
125 |
|
Cultivo de milho |
92 |
|
Cultivo de mandioca |
32 |
|
Cultivos perennes* (SAFs) |
0,3 |
|
Floresta nativa |
0,1 |
Fonte: Ollagnier et al. (1978).
Isto é particularmente relevante nos trópicos onde os solos são, em geral, mais
pobres e menos produtivos, comparados aos de zona temperada. A Tabela 1. Mostra
a distribuição dos principais grupos de solos nos três continentes tropicais. Os
oxisols e ultisols, que predominam nos solos dos trópicos úmidos, constituindo,
em média, 41% dos solos tropicais e chegando a representar 55% dos solos
tropicais do continente americano, são solos altamente lixiviados, possuem baixo
teor de bases trocáveis, baixa reserva de nutriente, alto teor de alumínio e
baixa disponibilidade de fósforo (Sanchez, 1976). Os solos de moderada a alta
fertilidade (Alfisols, Vertisols, Mollisols e Andisols) constituem, em média,
somente 23% dos solos tropicais (Tabela 2).
Tabela 2. Distribuição geográfica das ordens de solo nos trópicos, baseado nos
solos dominantes do mapeamento da FAO na escala de 1:5 milhões.
Solos |
América tropical |
África tropical |
Ásia tropical |
Total |
||||
|
Área1 |
% |
Área1 |
% |
Área1 |
% |
Área1 |
% |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Oxisols |
502 |
33,6 |
316 |
27,6 |
15 |
1,4 |
833 |
22,7 |
|
Ultisols |
320 |
21,4 |
135 |
11,8 |
294 |
28,4 |
749 |
20,4 |
|
Entisols |
124 |
8,3 |
282 |
24,7 |
168 |
16,2 |
574 |
15,7 |
|
Inceptisols |
204 |
13,7 |
156 |
13,7 |
172 |
16,6 |
532 |
14,5 |
|
Andisols |
31 |
2,1 |
1 |
0,1 |
11 |
1,1 |
43 |
1,2 |
|
Alfisols |
183 |
12,3 |
198 |
17,3 |
178 |
17,4 |
559 |
15,2 |
|
Vertisols |
20 |
1,3 |
46 |
4,0 |
97 |
9,3 |
163 |
4,4 |
|
Aridisols |
30 |
2,0 |
1 |
0,1 |
56 |
5,4 |
87 |
2,4 |
|
Mollisols |
65 |
4,4 |
0 |
0 |
9 |
0,9 |
74 |
2,0 |
|
Histosols |
4 |
0,2 |
5 |
0,4 |
27 |
2,6 |
36 |
1,0 |
|
Spodosols |
10 |
0,7 |
3 |
0,3 |
7 |
0,7 |
20 |
0,5 |
|
Total |
1.493 |
100,0 |
1.143 |
100,0 |
1.034 |
100,0 |
3.670 |
100,0 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
1 Área em ha x 106
Fonte: Szott at al., (1991).
Os supostos efeitos (benéficos e adversos) das árvores nos sistemas
agroflorestais são (Nair, 1993):
Efeitos benéficos
1. Adição ao solo
- Manutenção ou aumento da matéria orgânica
- Fixação de nitrogênio
- Absorção de nutrientes (reciclagem de nutrientes)
- Deposição atmosférica de nutrientes
- Exsudação de substâncias promotoras de crescimento na rizosfera
2. Redução de perdas pelo solo
- Proteção contra erosão
- Recuperação de nutrientes (reciclagem de nutrientes)
3. Efeito sobre propriedades físicas do solo
- Modificação de temperaturas extremas do solo
4. Efeito sobre propriedades químicas do solo
- Redução da acidez
- Redução da salinidade
- Redução da perda de MO do solo por oxidação (efeito do sombreamento)
Efeitos adversos
- Perda de MO e nutrientes por colheita (espécie madeireira)
- Competição por nutrientes a água entre as espécies arbóreas e os cultivos
agrícolas
- Produção de substâncias inhibidoras de germinação e crescimento
Um aspecto que deve ser enfatizado em Sistemas Agroflorestais é a ciclagem de
nutrientes, especialmente os de fácil lixiviação como cálcio (Ca), potássio (K)
e enxofre (S). O cultivo consorciado tem a vantagem de retirar estes nutrientes
das camadas mais profundas do solo e devolvê-los à superfície pela queda das
folhas e ramos das espécies arbóreas, os quais tornam-se nutrientes disponíveis
às plantas após a decomposição da matéria orgânica e posterior mineralização.
No sistema solo-planta, os nutrientes da planta estão em um “status” contínuo de
transferência dinâmica. As plantas absorvem os nutrientes do solo e os usam nos
processos metabólicos. As partes da planta que retornam ao solo, como folhas
mortas, ramos e raízes, formam o “litter” ou biomassa que por ação da atividade
de microorganismos do solo se decompõem e liberam os nutrientes para serem
absorvidos novamente pelas plantas. Em uma visão mais restrita, ciclagem de
nutrientes refere-se a esta contínua transferência de nutrientes do solo para
planta e de volta para o solo. No aspecto mais amplo, ciclagem de nutrientes
envolve a transferência continua de nutrientes dentro dos diferentes componentes
do ecossistema, incluindo processos tais como intemperização de minerais,
atividades da biota do solo e outras transformações que ocorrem na biosfera,
atmosfera, litosfera e hidrosfera (Nair, 1993).
Nos SAF’s a utilização de espécies florestais ou frutíferas que interagem
simbioticamente com bactérias do gênero Rhizobium, contribui para, além na
ciclagem normal de outros elementos, também para aumentar a quantidade de
nitrogênio no solo. Na tabela 3 pode-se observar a importância da ciclagem de
nutrientes em áreas de cacau sombreadas com espécies nitrificadoras. Para
comparação, foi incluída na tabela 3 a necessidade da planta para repor os
nutrientes retirados da área por ação da lixiviação e colheita dos frutos.
Observa-se que a quantidade de nutrientes aportados (N, P, K, Ca e Mg) pela
litter produzido por qualquer uma das três espécies é sempre maior do que o
total de nutrientes removidos pela colheita dos frutos e por lixiviação.
Naturalmente que existe outra fonte de remoção de nutrientes muito importante
que não consta da tabela 3 que é à parte de nutrientes utilizado para a formação
de órgãos e tecidos da planta. De qualquer forma, mesmo que os nutrientes
aportados pela biomassa não se igualem às exportadas (lixiviação e colheita) e
utilizadas (metabolizção) pela planta, que seria o ideal, mas pelo menos reduzem
bastante a necessidade de importação destes elementos para a área.
Os sistemas agroflorestais podem ser considerados como uma das alternativas de
manejo racional dos recursos naturais renováveis que equacionam os principais
problemas da agricultura e de seus impactos negativos sobre o meio ambiente,
assim como oferecem possibilidades para amenizar e/ou solucionar as dificuldades
financeiras de grande parte dos agricultores brasileiros (Tsukamoto Filho,
1999).
Atualmente o mundo se preocupa com a sustentabilidade e preconiza como
alternativa viável para atingir o desenvolvimento sustentável, os sistemas
agroflorestais. Desta forma os SAFs passaram a fazer parte de diretrizes
centrais de desenvolvimento rural sustentável pelo potencial de serem
implantados em áreas já degradadas, reincorporando-as ao processo produtivo e
minimizando, assim, o desmatamento sobre florestas primárias. São uma opção
estratégica para pequenos produtores por causa da baixa demanda de insumos, ao
maior rendimento líquido por unidade de área em comparação com sistemas
convencionais de produção e por fornecerem inúmeros serviços sócio-ambientais.
Esses serviços podem ser valorados, e convertidos em créditos ambientais,
propiciando agregar valor à propriedade agrícola (Gandara e Kageyama, 2001).
O avanço dos SAFs a partir da experimentação empírica por agricultores e, mais
recentemente, a partir de experimentos formais denominados científicos, vem
mostrando que os sistemas mais complexos, imitando as florestas naturais,
utilizando o conceito de biodiversidade e sucessão ecológica, apontam para novos
horizontes a agricultura nos trópicos.
Tabela 3. Produção de biomassa, teores de
nutrientes aportados por algumas espécies componentes de SAFs com o cacaueiro e
quantidade de nutrientes removidos através da colheita de frutos de cacau e
lixiviação.
Espécie |
Produção de Biomassa
(t / ha / ano) |
Teor de nutrientes na Biomassa(kg / ha / ano) |
|
|||||||||||
|
|
|
|||||||||||||
|
N |
P |
K |
Ca |
Mg |
|
|||||||||
|
|
Erythrina poeppigiana |
5,0 |
174,9 |
8,8 |
53,6 |
163,3 |
53,7 |
|||||||
|
|
Cordia alliodora |
3,4 |
114,8 |
13,9 |
65,5 |
124,8 |
50,3 |
|||||||
|
|
Gliricidia sepium |
10,5 |
333,0 |
20,0 |
176,0 |
140,0 |
42,0 |
|||||||
|
|
|
Colheita de frutos1 |
34,0 |
3,0 |
24,5 |
6,0 |
6,5 |
|||||||
|
|
Remoção de nutrientes |
Lixiviação |
40,0 |
0,5 |
1,5 |
45,0 |
21,5 |
|||||||
|
|
|
Total |
74,0 |
3,5 |
26,0 |
51,0 |
28,0 |
|||||||
1. Frutos equivalentes a 1.000 kg de amêndoas
secas
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