ANÁLISE-DIAGNÓSTICO DO PROCESSO DE PLANTIO DE MUDAS DE CACUEIROS PROPAGADAS POR ESTAQUIA



1. INTRODUÇÃO
O cacaueiro tem sua origem envolta por mitologias e lendas, reza uma lenda que: o deus asteca Quetzalcoalt (senhor da lua prateada e dos ventos gelados), com intenção de oferecer aos mortais algo que lhes enchesse de energia e prazer, foi aos campos luminosos do reino dos Filhos do Sol para de lá furtar as sementes da árvore sagrada. Desta forma, fantástica, as sementes do cacaueiro teriam surgido na região dos Astecas e aí frutificado, dando origem à árvore.

Não que isso seja função da lenda, mas, o cultivo do cacaueiro constituiu-se num dos raros casos entre as espécies perenes cultivadas em que a reprodução seminal superou a propagação vegetativa (DIAS, 1993). Além disso, por estar associado à religiosidade, foi inicialmente cultivado por sacerdotes e, posteriormente, por agricultores interessados em estabelecer lavouras comerciais de cacaueiros, especialmente na Bahia.

2. HISTÓRICO DA PRODUÇÃO DE MUDAS
Nos primeiros plantios de cacaueiros realizados na região Sul da Bahia, no final do século XIX, foram utilizadas sementes vindas do estado do Pará. Como o facão era o instrumento utilizado na abertura de covas para disposição das sementes direto no campo os plantios eram denominados: a bico de facão. Somente na década de 70 a produção de mudas passou a ser realizada em viveiros com utilização de sacolas plásticas.


A produção de mudas de Theobroma cacao L. por estaquia foi, inicialmente, testada na década de 30 (PYKE, 1933), e utilizada em escala comercial em Trinidad, nas décadas de 30 e 40. Entretanto, algum tempo depois, muitas das áreas plantadas com clones, foram substituídas por híbridos multiplicados por sementes.


A produção de mudas de cacaueiros por estaquia foi descrita e testada na Bahia por (FOWLER, 1955). Contudo, os estudos de PYKE (1933) em Trinidad e de ALVIM (1953) foram, também, importantes para compreensão dos mecanismos fisiológicos que envolvem o enraizamento de estacas. Outros estudos foram desenvolvidos em Turrialba, Costa Rica e Pichilingue no Equador (ALVIM, 2000).


No Brasil, por diferentes motivos, o uso da técnica de enraizamento do cacaueiro foi abandonado nos últimos 40 anos. Um deles foi o advento do material híbrido na década de 70 que redirecionou os plantios para sementes melhoradas (SENA-GOMES et al., 2000). Com o surgimento da vassoura-de-bruxa e a seleção de variedades clonais tolerantes à doença, houve necessidade de se recorrer novamente às técnicas de enraizamento.

3. O INSTITUTO BIOFÁBRICA DE CACAU
A propagação vegetativa com uso de estaquia, em grande escala, somente foi iniciada em 1999 pelo Instituto Biofábrica de Cacau (IBC), utilizando protocolo de produção de mudas de eucalipto das empresas florestais, com adaptações às condições morfofisiológicas do cacaueiro. O Centro de Pesquisas do Cacau (CEPEC), da CEPLAC, tem dado suporte técnico-científico ao IBC desde sua implantação.


O IBC, localizado no município de Ilhéus-BA, entre as coordenadas geográficas 14o 38’ S e 39o 15’ W, é uma instituição social sem fins lucrativos, criada em 1999 pelo Governo do Estado da Bahia. Nessa unidade, são produzidas mudas de cacaueiros por via vegetativa utilizando diferentes clones tolerantes a doenças.


Estimativas feitas pelo IBC permitem sinalizar que aproximadamente 5.000 ha de cacaueiros estão sendo cultivados no Estado da Bahia, com utilização de mudas clonais propagadas por estacas enraizadas em tubetes. A Tabela 1 mostra a capacidade produtiva do IBC e, revela seu potencial de uso para a diversificação agrícola.

Tabela 1 – Produtos gerados pelo Instituto Biofábrica de Cacau no período de 2001 - 2003
 

Cultivo

Mudas

Garfos

Total

Cacau

5.232.000

2.700.000

7.932.000

Essências Florestais

1.505.000

----

1.505.000

Bananeira (Resistente a Sigatoka Negra)

575.000

----

575.000

Fruteiras Tropicais

113.000

----

113.000

Café Conilon

500.000

----

500.000

Dendê Tenera

78.000

----

78.000

Total

8.003.000

2.700.000

10.703.000

Fonte: IBC (2004)


Para consolidar o Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira, que prevê a renovação de 300 mil hectares, será necessário produzir e disponibilizar grande quantidade de material vegetal tolerante. Nesse contexto, a produção de mudas e todas as atividades que permitam elevar o seu rendimento assumem fundamental importância.

4. O PROBLEMA DO PROCESSO DE PLANTIO DE MUDAS PROPAGADAS POR ESTAQUIA


4.1. Importância do planejamento
O início de um trabalho de planejamento para recomposição do estande de roças de cacau e/ou implantação de novas lavouras, com uso de mudas propagadas por estaquia, compreende uma fase de diagnóstico da infra-estrutura do imóvel e das condições edafo-climáticas da área destinada ao plantio. Portanto, algumas perguntas devem ser formuladas e respondidas por ocasião da elaboração do planejamento:


- Qual a estratégia a ser utilizada para aumentar a produção de cacau da empresa? Formação de novas áreas (implantação) ou elevação do número de cacaueiros para 1100 plantas por hectare (recomposição do estande)?


- Qual das áreas disponíveis apresenta características topográficas e edáficas (declividade, profundidade efetiva, textura, afloramentos rochosos, etc) favoráveis à conservação dos solos, ao aumento da eficiência de mão-de-obra e à produção do cacaueiro?


Conseqüentemente, alguns critérios devem ser estabelecidos para tomada de decisão quando houver necessidade de formação de novas áreas e/ou recomposição de estandes: aspecto da área (sombreamento provisório, sombreamento definitivo); acesso; relevo (declividade, situação); solos (profundidade, textura e abertura de covas).

5. TECNOLOGIA DISPONÍVEL


5.1. Sombreamentos provisório e definitivo:
Adequar o sombreamento provisório e definitivo, pelo menos seis meses antes da época planejada para plantio, é essencial para reduzir a condição de estresse imposta às mudas por ocasião do transplante para as covas e nas primeiras semanas de campo. Quando o sombreamento definitivo for muito denso, deve-se atentar para o fato de que mudas propagadas por estaquia são mais sensíveis a situações de competição quando há dominância de cacaueiros adultos ou árvores de sombra ao seu redor. Convém lembrar que para adequar (reduzir) sombreamento, caso isso seja necessário, deve-se verificar junto a Superintendência de Desenvolvimento Florestal e Unidades de Conservação (SFC) a autorização para eliminação de árvores.

5.2. Acesso e distância do imóvel até a unidade de produção de mudas:
Acessos ruins e grandes distâncias implicam num maior tempo para transporte das mudas da unidade de produção até o imóvel. Nestes casos, devem-se transportar as mudas nos horários do dia com temperaturas mais amenas.

5.3. Transporte
Mesmo não sendo considerada uma etapa do processo de produção, o transporte das mudas da unidade de produção para a propriedade requer uma série de cuidados sem os quais o sucesso do plantio de mudas clonais ficará comprometido.


O transporte é geralmente feito por caminhões ou automóvel utilitário com a parte superior e as laterais protegidas contra chuva e ventos. Devem-se também equipar os veículos com grades para acomodação das bandejas. Uma pesquisa, realizada com 137 produtores de cacau, revelou que quase 40% dos produtores transportam as mudas, do IBC até o imóvel, em horário inadequado, evidenciando a necessidade de orientação (Tabela 2).

Tabela 2 - Tipo de transporte e, horário utilizado pelos produtores para transportar as mudas de cacaueiros, produzidas por estaquia, do IBC até o imóvel.
 

Tipo de Transporte

Freqüência

%

Hora Transporte

Freqüência

%

Carro Próprio

59

43,1

06:00 às 10:00 h

66

48,2

Caminhão Terceirizado

63

46,0

10:00 às 16:00 h

54

39,4

Outro*

15

10,9

Após as 16:00 h

17

12,4

* Carro alugado por prefeituras.

Durante o dia, os melhores períodos para transporte são definidos até às 9h e a partir das 16 h. O transporte feito entre as 10h e 16h em dias quentes aumenta a transpiração das plantas e a perda de água do substrato, reduzindo a porcentagem de sobrevivência, principalmente quando se faz plantio direto. Assim, dias mais úmidos, com temperaturas entre 22oC e 25ºC, e chuvas de pequena intensidade são desejáveis durante o transporte. Em distâncias superiores a 100 km, recomenda-se irrigar as mudas a cada 2 horas.

6. PLANTIO OU TRANSPLANTIO?
Portanto, para que o plantio de mudas propagadas por estaquia obtenha sucesso, as condições de campo devem ser adequadas (umidade do solo, sombreamento, abertura de covas e adubação), sendo que se as mudas tiverem idade entre cinco e seis meses, pode-se recomendar o plantio direto no campo (MARROCOS et al., 2003). Essa opção apresenta como vantagem economia de tempo e recursos pelo fato de não ser necessário preparar viveiros e conduzirem mudas em recipientes de peso e volume superiores ao do tubete. Além disso, evita a ocorrência de injúria aos sistemas radiculares ocorridas, normalmente, durante a repicagem para sacolas plásticas.


Entretanto, para os casos em que há necessidade do transplante de mudas para sacolas plásticas (dimensões: 16 x 40 x 08cm), os dados de SODRÉ et al. (2004: não publicados) mostrados na Tabela 3, evidenciam que as mudas têm um maior crescimento e desenvolvimento com uso de substratos orgânicos, isoladamente ou incorporados ao solo. Contudo, deve-se ter cuidado com a origem do material para evitar o surgimento de doenças.


Tabela 3- Diâmetro e altura do caule, matéria seca da parte aérea (MSPA), matéria seca de raízes (MSR) e área foliar de mudas de cacau propagadas por estaquia em tubete e repicadas aos 90 dias para diferentes substratos.
 

Tratamentos

Diâmetro

Altura

Matéria seca

Área foliar

MSPA

MSR

 

...mm..

...cm....

..............g ................

......cm2....

SOLO

1,12c

60,0b

34,92c

2,68b

3474,96c

SERRRAGEM

1,40a

79,6a

69,28a

4,94a

9656,77a

COMPOSTO CASCA CACAU

  1,29ab

65,3b

45,56d

3,45ab

5967,01b

SOLO + SERRAGEM

1,25b

77,3a

58,30b

5,55a

8005,62a

SOLO + COMPOSTO CASCA CACAU

1,41a

79,1a

56,73b

4,49ab

8249,47a

SERRAGEM + COMPOSTO CASCA CACAU

1,40a

77,8a

64,90a

5,47ab

9630,38a

C.V (%)

4,51

5,57

6,15

19,10

10,53

Médias seguidas da mesma letra na coluna não diferem entre si pelo teste de Student-Newman-Keuls, (SNK) a 5% de probabilidade.

È recomendável, também, que os produtores plantem clones já identificados como autocompatíveis. Sendo que, deve-se atentar para a não utilização de um grande número de clones na formação de novas áreas. Os plantios devem ser formados de modo a que cada gleba utilize no máximo seis clones com vigor semelhante, sendo que pelo menos a metade seja intercompatível com a outra metade.

7. ÉPOCA DE PLANTIO
A época de plantio está relacionada com o conteúdo de água no solo, característica essa que responde na maioria dos casos pelo sucesso do plantio de mudas clonais. Na região cacaueira do sul do estado da Bahia, a melhor época ocorre no início da estação chuvosa de inverno (meses de junho a agosto). Plantio de cacaueiros em outras épocas dependerão muitas vezes de chuvas, irrigação complementar, situação da área (declive), posicionamento em relação ao sol, tamanho da cova e existência de sombreamento adequado.


MARROCOS et al. (2004, dados não publicados) observaram que muitos produtores não têm prática no manejo das mudas clonais, ocorrendo problemas no transporte, na acomodação das mudas na fazenda antes e durante o processo de plantio. Assim, a depender do manejo, das condições climáticas e do sombreamento da área, os índices de sobrevivência das mudas são bastante reduzidos.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não se pretendeu nesse trabalho esgotar o conhecimento sobre o processo de produção de mudas do cacaueiro, visto tratar-se de uma mudança de paradigma na cacauicultura. Contudo, espera-se ter levantado o estado da arte do tema e, se possível sugerido idéias para fortalecimento da cultura no Brasil, buscando o retorno à posição de primeiro produtor mundial de amêndoas secas, alcançado no final da década de 70.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVIM, P. T. Nuevos propagadores para el enraizamiento de estacas de cacao. Centro Interamericano del Cacao, Turrialba, Costa Rica, Cacao, 2(47-48):1-2. 1953.

ALVIM, P. T. Fatores fisiológicos associados com a propagação bem sucedida de cacau por enraizamento de estacas. In: Pereira, J. L. et al. (eds). Atualização sobre Produção Massal de Propágulos de Cacau geneticamente melhorado. Atas, BA, Ilhéus. 1998, p 90-91, 2000.


DIAS, L.A.S. Propagação vegetativa vs reprodução seminal em cacau. In: Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, 45. Anais. Recife: SBPC, 1993. p.19.

FOWLER, R. L. Propagação de cacau por meio de estacas. Escritório técnico de Agricultura- ETA Brasil – Estados Unidos Avulso IL. n 3 , 1955.

PYKE, E. E. The vegetative propagation of cacao. II. Softwood cuttings. Annual Report on Cacao Research, 2, 3-9, 1933.

MARROCOS, P.C.L. et al. Normas para o plantio de mudas de cacaueiros propagadas por estaquia: atualização. Ilhéus: CEPLAC. 28p.

SENA-GOMES, A. R., CASTRO, G. C., MORENO-RUIZ, M. M.; ALMEIDA, H. A. Avanços na propagação clonal do cacaueiro no Sudeste da Bahia. In: Pereira, J. L. et al. (eds). Atualização sobre Produção Massal de Propágulos de Cacau geneticamente melhorado. Atas, BA, Ilhéus. 1998, p 85-89, 2000.
 

 

Paulo Cesar Lima Marrocos(1)

George Andrade Sodré(2)