PROPOSTA PARA A SUBSTITUIÇÃO DA ERITRINA POR SERINGUEIRA EM UM SISTEMA AGROFLORESTAL CONTÍNUO COM CACAUEIRO NA BAHIA

 

Introdução

A Bahia é um dos estados que oferece as maiores perspectivas para ampliação da área cultivada com seringueira no Brasil, dadas as condições favoráveis de clima e solo, disponibilidade de mão-de-obra qualificada, variedades clonais melhores adaptadas, infra-estrutura moderna para o beneficiamento e escoamento fácil do produto, além de uma larga tradição na exploração desta cultura.

Mais recentemente, com a implementação do programa de renovação da lavoura cacaueira, abriu-se uma possibilidade real da seringueira ocupar espaços outrora ocupados apenas com cacau . A seringueira se constitui em uma das opções mais viáveis para o sombreamento permanente do cacaueiro, pois além de proporcionar uma sombra de qualidade é uma espécie de alto valor econômico e ecológico, que poderá substituir satisfatoriamente as eritrinas e outras espécies afins, principalmente nas áreas formadas pelo sistema de plantio denominado “derruba total” (MARQUES e MONTEIRO, 2003). A substituição de parte dessas eritrinas certamente não causará qualquer impacto ao meio ambiente e nem tampouco comprometerá a sua preservação, já que se trata de espécies exóticas ao ecossistema cacaueiro (LORENZI, 1998). Além disso, a adoção desse sistema não implica na incorporação de novas áreas ao processo de produção, o que o torna mais atrativo sobre os aspectos prático, econômico, social e, mais especificamente, o ambiental.

Com essas considerações propõe-se a recomendação da inclusão da seringueira como árvore de sombra, em substituição às eritrinas, nas lavouras cacaueiras em processo de renovação, adotando-se espaçamentos maiores aos tradicionalmente utilizados, buscando com isso, melhor qualidade de sombra para o cacau e um equilíbrio produtivo e econômico para ambas as culturas (MARQUES e MONTEIRO, 2003). Para tanto, Unidades Demonstrativas de SAF no sistema contínuo estão sendo instaladas experimentalmente, para testar os espaçamentos diferenciados para seringueira, assim como servir de veículo de transferência de tecnologia para os extensionistas e produtores rurais.

Materiais e Métodos

Sistemas mistos permanentes contínuos – O sistema agrossilvicultural contínuo está sendo conduzido no campo experimental do Centro de Pesquisas do Cacau - Cepec, Ilhéus, Ba, em solos de alta fertilidade, classificados como tipo Cepec, numa área de 3,30 ha. Adotaram-se sete dispositivos de plantio resultantes da combinação de espaçamentos de plantio dentro das linhas simples de cacaueiros. O delineamento experimental usado foi o de blocos ao acaso com três repetições. Neste sistema, as seringueiras foram plantadas em fileiras simples, intercalando-se com 3 a 5 fileiras de cacau, conforme as seguintes opções de espaçamento entre e dentro de fileiras: 9,0 x 2,5 m e 3,0 m; 12,0 x 2,5 m e 3,0 m; 15,0 x 2,5 m e 3,0 m, tanto no sentido norte-sul quanto leste-oeste. As fileiras de seringueiras poderão também ser duplas com espaçamento entre os renques de 15,0 m e entre e dentro das fileiras de 3,0 x 2,5 m também nas entrelinhas dos cacaueiros.

Evidentemente, como a grande maioria das lavouras antigas de cacau apresenta um estande médio reduzido de plantas, ou seja, entre 600 a 700 plantas por hectare, há a necessidade de se fazer a sua recomposição para 1.111 plantas por hectare, no espaçamento de 3,0 x 3,0 m. Por esse motivo, pode também haver a necessidade de introdução de outras espécies de plantas para prover sombreamento temporário aos cacaueiros a exemplo da mandioca ou aipim, das bananeiras da prata ou da terra, da gliricídia, etc. A gliricídia é uma leguminosa de fácil manejo que propicia também a fixação de nitrogênio ao solo.

Juntamente com a seringueira, será também utilizada uma outra essência florestal para substituição das eritrinas, ou seja, a Tectona grandis, vulgarmente conhecida por teca, que será inserida nas mesmas linhas da seringueira, porém distanciada 12 m uma da outra. Esta espécie proporciona não somente uma sombra adequada mas também uma madeira de alto valor econômico com múltiplas aplicações na industria naval e de móveis (CÁCERES FLORESTAL, 1997; CEPLAC, 1999).

A densidade populacional da seringueira poderá variar de 222 a 444 plantas por hectare, enquanto a densidade da teca será de 25 plantas/ha. Esta variação na densidade da seringueira depende do espaçamento adotado e tem influência sobre o custo da substituição (Tabela 1). A adoção deste sistema na região cacaueira compreende predominantemente os agrossistemas tradicionais de cultivo do cacaueiro, onde há maior concentração das eritrinas, ou sejam: os vales dos grandes rios e os municípios de Camaçã e Ipiaú.

Tabela 1 - Custo adicional da substituição da eritrina por seringueira, considerando-se 600 cacaueiros/ha e R$12,80 por dia o valor da mão de obra.

 

 

 

 

Estande da seringueira Plantas/ha

Seringueira * R$

Cacau R$

Consórcio %

267

1.241,90

4.666,18

21,0

333

1.314,50

4.666,18

22,0

444

1.436,60

4.666,18

23,5

* estes valores incluem também o custo da derruba e retirada das eritrinas.

Considerações Gerais

Custos da substituição - Os custos adicionais para a implementação do processo da substituição do sombreamento permanente são compostos pela derruba e retirada das eritrinas das áreas de cacau, da abertura de covas para o plantio e pela aquisição ou produção de mudas de seringueiras. A derruba das eritrinas deve ser feita com critério, evitando-se, ao máximo, a danificação dos cacaueiros adultos, que serão enxertados com novas variedades clonais produtivas e resistentes às doenças. Em área experimental demonstrativa, ficou mostrado que a perda total de plantas de cacau com a derruba de eritrinas foi em torno de 10%, numa área cuja densidade média de cacaueiros era de 600 plantas/ha.

Riscos e dificuldades da substituição - A substituição das árvores de sombra permanente só deve ser feita através da derruba das eritrinas e espécies afins em lavouras de cacau em que ainda não se deu início aos trabalhos de enxertia. Nas áreas onde os cacaueiros já se encontram enxertados, a substituição também só poderá ser feita se as eritrinas forem eliminadas quimicamente. Para isso é imprescindível o envolvimento de técnicos da Ceplac por se tratar de atividades de risco que normalmente exigem maiores cuidados.

Os cacauais estabelecidos no sistema de plantio em “cabruca”, não serão contemplados nesta proposta e devem ser estrategicamente evitados, por constituírem-se em uma forma de manutenção e preservação de espécies importantes do ecossistema da Mata Atlântica baiana.

Este modelo de consorciação só deve ser aplicado em lavouras de cacau que apresentem relevo favorável, solos profundos e bem drenados, evitando-se com isso os danos que normalmente são causados ao plantio da seringueira quando estabelecidos em áreas de baixada e/ou com impedimentos físicos.

Quando da exploração econômica do seringal atenção especial deve ser dispensada no tratamento preventivo de doenças fúngicas, em especial aquelas que ocorrem no painel, isto porque ambas as culturas são suscetíveis ao ataque de Phytothphora sp, principalmente em períodos de alta umidade relativa do ar.

Considerações Finais

Além das vantagens comumente observadas em quase todos os consórcios (controle natural das invasoras, reciclagem de nutrientes e compartilhamento residual dos fertilizantes), esta substituição traz outras vantagens agronômicas que merecem ser destacadas:
1) Redução dos riscos ecológicos e econômicos inerentes às monoculturas;
2) Desenvolvimento de um microclima mais favorável à proliferação de polinizadores naturais, isto porque tanto o cacaueiro como seringueira são polinizadas pelas mesmas micromoscas da família Heleidae;
3) Redução dos danos causados pelo Microcyclus ulei, fungo responsável pela enfermidade denominada mal-das-folhas da seringueira, a qual parece poder ser minimizada com o melhor manejo dispensado ao cacaueiro;
4) Melhoria das condições de sombreamento do cacaueiro em decorrência da troca natural de folhas da seringueira, permitindo maior penetração de luz e, conseqüentemente, estimulando a frutificação dos cacaueiros em períodos mais definidos;
5) Maior flexibilidade na comercialização de ambos os produtos em épocas mais favoráveis;
6) Contribuição para a fixação do homem no campo, por se tratar de atividades de longo ciclo de exploração econômica.

Convém ainda mencionar que os tratos culturais normalmente dispensados aos cacaueiros serão suficientes para atender plenamente às necessidades fisiológicas das culturas permanentes. Além disso, a adoção deste sistema de plantio contínuo não implica na incorporação de novas áreas ao processo de produção, ou seja, não obriga a novos desmatamentos, o que o torna ainda mais atrativo sobre aspectos prático, econômico, social e, mais especificamente, o ecológico.

Referências Bibliográficas

CÁCERES FLORESTAL. 1997. Manual do reflorestamento da teca. Cáceres. 30p.

COMISSÃO EXECUTIVA DO PLANO DA LAVOURA CACAUEIRA. 1999. Sistemas Agroflorestais com o Cacaueiro. Porto Velho, Ceplac/Supoc. (Folder).

MARQUES, J.R.B e MONTEIRO, W.R. 2003. Substituição da Eritrina por outras Espécies Arbóreas de Valor Econômico – Um Enfoque Sustentável de Modernização Agrícola, 25ª Semana do Fazendeiro. EMARC – Uruçuca/BA, 2003. Agenda Técnica - Produzir, Alimentar, Vender e Conservar. CEPLAC/EMARC. pp. 143 – 147.

LORENZI, H. 1998. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivos de plantas arbóreas nativas do Brasil. V. 2, Editora Plantarum Ltda, Nova Odesa, SP, Brasil, 360p.

José Raimundo Bonadie Marques
Wilson Reis Monteiro

Maria Helena de C. F. Serôdio

Isabel Cristina S. Fontes Lima Brandão

Ceplac/Centro de Pesquisas do Cacau - Cepec, Caixa Postal 07, 45.600-970, Itabuna, Bahia, Brasil. e-mail: bonadie@cepec.gov.br, monteiro@cepec.gov.br,
hserodio@cepec.gov.br, labsolo@cepec.gov.br