CONSORCIAÇÃO - A SAÍDA PARA MODERNIZAÇÃO DE SISTEMA
DE EXPLORAÇÃO AGRÍCOLA DA REGIÃO CACAUEIRA


A monocultura tem sido praticada extensivamente para uma certa elite de culturas tropicais. Isto, a princípio, trouxe grandes vantagens devido às facilidades de manejo em extensas áreas, proporcionando, assim um sistema voltado à obtenção de altas produções com lucros substancias. Todavia, este modelo de exploração para muitas culturas tropicais tem-se mostrado um sistema não tão efetivo quanto se esperava. Vários fatores têm concorrido para a sua ineficiência, dentre eles destacam-se: o elevado custo de manutenção, especialmente durante o período que se estende desde a implantação até a fase de estabilização de produção da cultura; a concorrência entre plantas; e a extensão de áreas ocupadas com baixa densidade de plantas. Esses fatores geralmente elevam o custo de produção, tornando o agronegócio pouco competitivo e economicamente vulnerável, especialmente em ocasiões de crises, como aquelas provocadas pela escassez de crédito, aumento da oferta do produto no mercado interno e mundial, aumento do custo dos insumos e da mão-de-obra e queda de preço do produto e da produtividade por unidade de área.

Fatos concretos permitem concluir que o sistema de monocultivo deve ser revisto, a exemplo das tradicionais lavouras de cacau, seringueira, guaraná, cravo-da-india, coco, dendê, pimenta-do-reino e café. Isto mostra a necessidade de se promover uma modernização do sistema de exploração agrícola, especialmente no que diz respeito à região cacaueira da Bahia, adotando-se sistemas de policultivos que venham agregar mais receitas. Consórcios bem planejados, capazes de promover com eficácia o desenvolvimento sustentável da região cacaueira, devem ser encorajados. Dentre as culturas de valor econômico passível de consorciação estão: o cacaueiro (Theobroma cacao), a seringueira (Hevea brasiliensis), o coqueiro (Cocus nucifera), o dendezeiro (Elaeis guineensis), a areca (Areca catechu), a castanheira (Bertholletia excelsa), a cajazeira (Spondia mombim) e o cupuaçuzeiro (Theobroma gradiflorum).

A cultura do cacau, embora requeira um sombreamento temporário e permanente, desenvolveu-se basicamente dentro do modelo monocultural. Muitos plantios foram estabelecidos em sistema agrossilvoflorestal denominado "cabruca", que, por falta de critérios na seleção de plantas nativas, e, ainda, aliado a outros fatores como a não agregação de receitas, irregularidade no sombreamento, maior efeito de competição e ocorrência de pragas, contribuíram para o seu insucesso. Nos últimos anos, a região sudeste da Bahia, que se apoiou quase que exclusivamente na monocultura do cacau e de algumas outras poucas espécies perenes, vem passando por uma crise social e econômica sem precedentes, profundamente agravada pela incidência e severidade das enfermidades como a vassoura-de-bruxa no cacaueiro, o mal-das-folhas na seringueira, o anel vermelho nas palmáceas, entre outras.

Estes fatos têm concorrido para o empobrecimento geral e progressivo dos produtores, levando-os à exploração ilegal e irracional de espécies mais nobres da Mata Atlântica. Para garantir a sua própria sobrevivência, terminam provocando a erosão genética de inúmeras e importantes espécies vegetais. Além do mais, os desmatamentos contínuos podem provocar alterações microclimáticas, como por exemplo na distribuição das chuvas, o que, por sua vez, terá impacto sobre a produção agrícola.

Um modelo auto-sustentável constitui-se na forma mais racional de exploração agrícola, capaz de manter o equilíbrio ecológico, com a máxima eficácia no uso da terra. Neste contexto vêm sendo desenvolvidos sistemas alternativos de exploração consorciada, envolvendo mais de um cultivo perene.

Dentro deste novo enfoque o cacaueiro e a seringueira despontam como opções viáveis para a consorciação permanente, por se tratarem de culturas de grande valor econômico, social e ecológico, que podem conjuntamente promover a maximização do uso da terra, com custos de manutenção reduzidos e agregação de receitas. E, considerando o fato de que o cacaueiro é uma espécie umbrófila, o sombreamento proporcionado pela seringueira consorciada é satisfatório. Além disso, a Ceplac tem encorajado aos produtores a utilizarem como sombra permanente espécies que proporcionem receita adicional.

Muito embora haja relatos de que a exploração das culturas acima relacionadas é mais rentável quando em monocultivos, estas situações podem ser invertidas em um sistema de consorciação com a adequação de uma série de fatores como as variedades, o dispositivo e a densidade de plantio, o manejo cultural etc. Assim, é necessário selecionar espécies alternativas, bem como definir os melhores arranjos no tempo e no espaço de maneira que os consortes não apresentem antagonismo entre si, o que certamente inviabilizaria tecnicamente a consorciação.

Na região cacaueira, especificamente nos pólos agrícolas de Una e Ituberá, há exemplos de exploração mista em que cacaueiros híbridos têm sido explorados no sub-bosque de seringais adultos previamente formados. Estas áreas não foram originalmente planejadas para o consórcio, mas em razão da redução do estande inicial por motivos de doenças e manejo inadequado, foi possível o estabelecimento de cacaueiros nas entrelinhas, o que tem melhorado as condições gerais de cultivo para ambas as espécies, com a agregação de receitas. Esse formato de plantio já vem sendo adotado há mais de 25 anos. Dados obtidos em diferentes propriedades mostram um índice médio de superioridade de até 145% em relação aos monocultivos de cacau e seringueira. Tal índice significa que seria necessária uma área de 2,45 ha entre cacaueiro e seringueira em monocultura para obter a produção equivalente de1 ha de consórcio, o que denota a compensação no envolvimento do cacaueiro (Agrotrópica 1(2), 1989).

Entende-se que o objetivo dos pesquisadores e extensionistas da Ceplac é desenvolver pesquisas e transferir tecnologia aos produtores nas áreas de sua atuação sobre a forma mais adequada e segura de investimentos em agronegócio. Assim, a Ceplac tem procurado sensibilizar os produtores para a oportunidade que o momento atual oferece para modernizar o sistema de exploração agrícola regional, diversificando os cultivos, visto que já se encontra em curso um programa de renovação de 300 mil hectares de cacaueiros.

Wilson Reis Monteiro
José Raimundo Bonadie Marques
Pesquisadores da CEPLAC/CEPEC/SEGEN em Itabuna - Ba
Trabalho publicado no Jornal AGORA Rural em 01/07/2002