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International Cocoa Research Conference,
Accra, Ghana, 2003
INFLUÊNCIA DO PACLOBUTRAZOL E DO ANELAMENTO APLICADOS EM DIFERENTES
ESTÁDIOS FENOLÓGICOS DO CACAUEIRO NO CONTROLE DA FLORAÇÃO E DO FLUXO
FOLIAR
RESUMO
O uso do anelamento e de paclobutrazol tem possibilitado o controle dos
processos de crescimento vegetativo e reprodutivo do cacaueiro.
Identificar o estádio fenológico da planta que melhor responda a estes
métodos, promovendo maior assincronia entre as épocas de liberação dos
esporos do Crinipellis perniciosa e a emissão de tecidos susceptíveis,
resultará em menores níveis de infecção e maiores possibilidades de
controle da vassoura-de-bruxa. A mudança da época de emissão de folhas,
flores e o conseqüente deslocamento da produção para um período menos
propício à enfermidade, possibilitará uma alternativa de escape à doença
no Recôncavo da Bahia. O experimento foi conduzido na Estação Experimental
da CEPLAC, localizada no Recôncavo da Bahia, coordenadas, 12° 30’ Sul e
38° 29’ Oeste. Constituído por doze ensaios repetidos mensalmente de maio
de 2001 a abril de 2002, instalados em cacaueiros da cultivar “Catongo”
com 22 anos de idade, no espaçamento 3x3m, apresentando bom
desenvolvimento vegetativo e produtividade média anual 675 kg/ha. As
unidades experimentais de cada ensaio foram distribuídas em cinco blocos
com quatro parcelas. Cada unidade, formada por uma planta, recebeu
aleatoriamente os seguintes tratamentos: paclobutrazol injetado no tronco
a 0,4 g.i.a./planta (PBZ-I); paclobutrazol aplicado no solo a 1,5
g.i.a./planta (PBZ-S); anelamento do tronco de 1,5 mm e; o controle.
Independentemente da época de aplicação, todos os tratamentos reduziram o
crescimento vegetativo, sendo o PBZ-S mais eficiente, seguido do
anelamento e PBZ-I. Resultados indicam setembro e maio como as melhores
épocas para realização do anelamento, com reduções de 38% e 32% em relação
ao controle. Agosto, outubro e maio, foram os melhores períodos para
aplicação de PBZ-S, reduzindo em 48%, 39% e 28%, respectivamente, o número
total de folhas emitidas. Considerando-se a floração total anual, com
exceção do PBZ-I, todos os tratamentos induziram incrementos nos
diferentes períodos de aplicação, sendo o anelamento da planta o mais
eficiente seguido do PBZ-S. Para o anelamento, a aplicação no período de
repouso vegetativo da planta (junho a setembro e março) mostrou ser mais
eficiente no aumento da floração, com incrementos de 100% a 370% em
relação às plantas controle. Os tratamentos induziram a antecipação e/ou a
ampliação do período de floração em até sete semanas.
Termos para indexação: Crescimento vegetativo, floração, paclobutrazol,
anelamento.
INTRODUÇÃO
A vassoura-de-bruxa, causada pelo fungo Crinipellis perniciosa (Stahel)
Singer, é considerada a mais devastadora das doenças do cacaueiro.
Originária e de ocorrência generalizada na região Amazônica (Baker &
Hollyday, l957), de onde se disseminou para os demais países produtores de
cacau da América do Sul e Central (Bastos, 1990). Representa um dos
principais problemas fitossanitários do cacaueiro e limitante da produção.
As estimativas de perdas anuais têm sido da ordem de 40% (Medeiros, 1974),
entretanto, encontrando condições favoráveis de umidade e temperatura o
patógeno pode destruir mais de 90% dos frutos (CEPLAC, 1993). Em áreas
onde o controle é realizado segundo as recomendações técnicas, pode-se
manter um nível de perdas entre 5 a 10% da produção (Almeida & Andebrhan,
1989).
A eficiência das práticas culturais, recomendadas para o controle da
vassoura-de-bruxa, depende principalmente do nível de infecção e altura
das plantas, sendo o seu custo bastante oneroso (Bastos, 1989). Por outro
lado, o controle químico, através da aplicação de fungicidas, é muito
difícil, uma vez que os basidiósporos de C. perniciosa infectam tecidos
meristemáticos, almofadas florais e frutos imaturos, sendo praticamente
impossível se manter uma cobertura adequada de produto, de modo a
assegurar uma proteção efetiva contra a infecção (Bastos, 1989; Lawrence
et al., 1991). Certa eficácia no controle da enfermidade, entretanto, tem
sido obtida através do controle biológico, utilizando o fungo Trichoderma
stromaticum (Luz et al., 1997), com a utilização de alguns fungicidas
sistêmicos (Bastos, 1989) e com o uso de clones resistentes à doença (Sena-Gomes
et al., 1999).
Na maioria das vezes, as condições que propiciam a formação de
basidiocarpos e liberação de basidiósporos são as mesmas que estimulam os
processos de desenvolvimento do cacaueiro. Desta forma o estudo dos
mecanismos fisiológicos e dos fatores ambientais que induzem o
aparecimento de tecidos susceptíveis, bem como a possibilidade do controle
destes mecanismos através de manejo e utilização de bio-reguladores,
poderá ser uma importante ferramenta no combate à doença (Müller et
al.2000, Müller et al., 2001; Lima, 2001; Lima et al., 2002).
O trabalho tem como objetivo determinar o período mais apropriado para a
aplicação de paclobutrazol e do anelamento visando deslocar as épocas
normais de emissão de folhas e flores.
MATERIAL E MÉTODOS
Os ensaios foram conduzidos na Estação Experimental Sósthenes de Miranda (ESOMI),
localizada no município de São Sebastião do Passe, no Recôncavo da Bahia.
O clima, segundo a classificação de Köppen, é do tipo Af, com precipitação
média anual em torno de 1600 mm e distribuição irregular, ocorrendo cerca
de 66% desse total em seis meses (março a julho e em novembro) e os 34%
restante nos meses de agosto a outubro e dezembro a fevereiro (Pinho et
al., 1992).
O experimento foi constituído por doze ensaios repetidos mensalmente (de
maio de 2001 a abril de 2002) em cacaueiros da cultivar “Catongo” com 22
anos de idade, plantados no espaçamento 3x3m, apresentando bom
desenvolvimento vegetativo e produtividade média anual em torno de 675
kg/ha. As 20 unidades experimentais de cada ensaio foram distribuídas em
cinco blocos com quatro parcelas. Cada unidade recebeu aleatoriamente o
tratamento sorteado por bloco e foi formada por uma planta.
Os seguintes tratamentos foram aplicados na primeira semana de cada mês:
a) Paclobutrazol injetado no tronco (PBZ-I) (0,4 g i.a./planta); b)
Paclobutrazol regado no solo (PBZ-S) (1,5 g i.a./planta); c) Anelamento
com serra (1,5 mm) e; d) Controle. Nos tratamentos com PBZ, o produto
diluído em água foi aplicado de duas maneiras: 20 ml de solução contendo
0,4 g i.a. injetado diretamente no tronco da planta, utilizando-se de uma
seringa apropriada (PBZ-I) e 2 litros de solução regados em volta do
coleto de cada planta, contendo 1,5 g i.a (PBZ-S). A perfuração do tronco
das árvores, para a fixação da seringa, foi feita com uma broca de aço
rápido de ¼ de polegada. Para o anelamento do caule, utilizou-se uma serra
de poda, retirando-se toda a casca em uma faixa de 1,5 mm de espessura a
20 cm do solo.
Os parâmetros avaliados foram fluxo foliar e floração. Para o fluxo foliar
em cada planta, foram previamente marcados 5 ramos plagiotrópicos,
localizados na parte periférica da copa e avaliados mediante contagem
semanal das folhas novas emitidas. As folhas só foram contadas quando o
comprimento do limbo era superior a dois centímetros. Antes de atingirem
este tamanho são consideradas como “rebentos”. A floração foi controlada
pela contagem semanal do número de flores emitidas em seções de 80 cm de
comprimento. Foram marcadas 3 seções de ramos plagiotrópicos e 1 de ramo
ortotrópico por planta.
Os dados foram transformados em log (x+1) e analisados através do SAEG,
versão 5.0. A significância dos efeitos estudados foi verificada pelo
teste F e a comparação das médias dos tratamentos, feita pelo teste de
Tukey a 5% de probabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Independentemente da época de aplicação, quase todos os tratamentos
interferiram no crescimento vegetativo, com reduções de até 48% no número
de folhas emitidas. Paclobutrazol aplicado no solo (PBZ-S) foi o mais
eficiente, seguido do anelamento e paclobutrazol injetado no tronco (PBZ-I)
(Quadro 1). Os resultados observados demonstram que, para o anelamento, a
época fonológica com maior redução do fluxo foliar foi maio e setembro,
com diminuição de 32% e 38% em relação ao controle apresentando, contudo,
significância estatística somente maio. Para o uso de PBZ-S, agosto,
outubro, abril, maio, dezembro e junho, foram os melhores períodos, com
reduções significativas de 48%, 39%, 36%, 28%, 25% e 22% do número total
de folhas emitidas. Os resultados obtidos com PBZ-I, mesmo reduzindo o
número de lançamentos foliares, na maioria dos períodos testados, não
foram suficientes para diferenciação estatística (Quadro1).
Deslocamentos nos períodos dos lançamentos foram observados, para todos os
tratamentos, somente quando aplicados nos meses de dezembro (Fig.1),
janeiro (Fig.2) e fevereiro de 2001, ocorrendo indução de novas folhas no
mês de março de 2002 que, apesar de ser o período normal de lançamento
foliar na região, as plantas controle apresentaram fraco crescimento
vegetativo (Fig.1 e Fig. 2). O PBZ-I foi o tratamento que induziu a
resultados mais expressivos, seguidos de PBZ-S e do anelamento do tronco.
Esta alteração de período, mesmo que pequena, pode ser importante, pois no
mês de março no Recôncavo baiano, a quantidade de basidiósporos é baixa e,
conseqüentemente, a possibilidade de infecção destes lançamentos são
menores.
Além do efeito quantitativo sobre a floração, ou seja, o aumento do número
de flores lançadas no período (novembro a maio) considerado normal de
floração do cacaueiro no Recôncavo baiano (Müller et al., 1988), também se
observou antecipação e/ou a postergação do processo em até 10 semanas e,
em alguns casos, a indução da floração em período atípico para a região
(Fig.3 e Fig. 4).
Quadro 1. Total de folhas (cinco ramas/planta) e flores produzidas (quatro
seções/planta) em cacaueiros da cultivar “catongo” submetidos ao
anelamento (Anela.) e à aplicação de paclobutrazol no solo (PBZ-S) e
injetado na planta (PBZ-I). Efeito percentual com referência ao controle e
comparação entre as médias. Cada valor representa o total de cinco plantas
em um período de 17 meses de observação. ESOMI - BA.
|
Fluxo Foliar
|
Floração
|
Época1
|
Tratamentos
|
Tratamentos
|
|
|
Cont.
|
Anela.
|
PBZ-S
|
PBZ-I |
Cont.
|
Anela.
|
PBZ-S
|
PBZ-I |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
MAI |
0
a |
-32 b |
-28 b |
-14
ab |
0 b |
034 ab |
103
a |
00-2 b |
JUN
|
0 a |
0-0 ab |
-22 b |
00 a |
0 b |
100 a |
127 a |
062 ab |
|
JUL |
0 a |
-19 a |
-19 a |
-12 a |
0 c |
106 ab |
145 a |
022 bc |
|
AGO |
0
a |
-19 a |
-48 b |
-20 a |
0 c |
265 a |
180 ab |
031 bc |
|
SET |
0
a |
-38 a |
-22 a |
-26 a |
0 c |
301 a |
080
b |
084
b |
|
OUT |
0 a |
-23 ab |
-39 b |
-21 ab |
0 a |
014
a |
050 a |
0-10 a |
|
NOV |
0 a |
-13 a |
-19 a |
0-7 a |
0 a |
043
a |
035 a |
0-14 a |
|
DEZ |
0 a |
-14 ab |
-25 b |
0-6 ab |
0 a |
064
a |
033
a |
0-18
a |
|
JAN |
0 a |
0-9 a |
0-9 a |
17 a |
0 a |
000
a |
0-21 a |
00-8 a |
|
FEV |
0 a |
0-5 a |
07 a |
18 a |
0 b |
260 a |
159 a |
145 a |
|
MAR |
0 a |
-16 a |
-11 a |
11 a |
0 b |
377 a |
232 a |
153 a |
|
ABR |
0 a |
-24 ab |
-36 b |
-20
ab |
0 b |
038
b |
184 a |
059 b |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
1. Referente ao mês de aplicação dos
tratamentos.
Médias seguidas da mesma letra, na linha e por parâmetro, não diferem
estatisticamente entre si pelo teste de Tukey (p <= 0,05).
A simples alteração na intensidade da floração, sem o deslocamento do seu
período, pode não ter importância para o controle da vassoura-de-bruxa,
contudo é de grande valia para garantir melhores índices na polinização
das plantas por disponibilizar maiores quantidades de polens aos insetos
polinizadores. No caso especial de áreas implantadas com a mistura de
cacaueiros auto-incompatíveis (AI) com autocompatíveis (AC), o assunto
assume maior importância, por disponibilizar quantidades extras de polens
compatíveis para serem utilizados na polinização das plantas AI.

FIGURA 1. Número de folhas emitidas
semanalmente em cinco ramos por planta marcadas em cinco cacaueiros da
cultivar catongo submetidos ao anelamento e ao paclobutrazol aplicado no
solo (PBZ-S) e injetado na planta (PBZ-I), temperatura média do ar semanal
e defice hídrico mensal. A seta em negrito indica o mês de aplicação dos
tratamentos. ESOMI.


FIGURA 3 Número de flores
produzidas semanalmente em quatro seções por planta marcadas em cinco
cacaueiros da cultivar catongo submetidos ao anelamento e ao paclobutrazol
aplicado no solo (PBZ-S) e injetado na planta (PBZ-I), temperatura média
do ar semanal e defice hídrico mensal. A seta em negrito indica o mês de
aplicação dos tratamentos. ESOMI.

FIGURA 4 Número de flores
produzidas semanalmente em quatro seções por planta marcadas em cinco
cacaueiros da cultivar catongo submetidos ao anelamento e ao paclobutrazol
aplicado no solo (PBZ-S) e injetado na planta (PBZ-I), temperatura média
do ar semanal e defice hídrico mensal. A seta em negrito indica o mês de
aplicação dos tratamentos. ESOMI.
CONCLUSÕES
Com os resultados obtidos neste trabalho conclui-se que:
a) a alteração quantitativa do fluxo foliar e da floração (número de
folhas e flores emitidas) foi conseguida tanto com o anelamento como com o
paclobutrazol sendo, contudo, mais evidente a redução do número de folhas
com o paclobutrazol aplicado no solo e do aumento da floração com o
anelamento das plantas;
b) o paclobutrazol e o
anelamento induziram a emissão de folhas (aplicação em dezembro e janeiro)
e flores (aplicação em fevereiro e março) em períodos que sob condições
normais não ocorrem, contudo, tanto a floração como o fluxo foliar
persistiram nos períodos normais, ou seja, houve a indução de lançamentos
extras e não a mudança das épocas normais de lançamento.
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