FRUTEIRAS TROPICAIS PARA CONSÓRCIOS
AGRÍCOLAS NO SUL DA BAHIA

INTRODUÇÃO

O sistemas de cultivo em consórcio se constituem uma boa alternativa para as propriedades rurais do Sul da Bahia, pois oferece integração entre preservação ambiental e cultivos agrícolas, para enfrentar os problemas crônicos de baixa produtividade, escassez de alimentos e degradação ambiental generalizada. Esses sistemas podem alcançar bons níveis de sustentabilidade nos seguintes aspectos: “agronômico, pela redução de riscos de pragas e doenças e melhor ciclagem de nutrientes; econômico, pela diversificação das fontes de renda; social, conseqüente da diversificação de mercados e serviços; e ecológico, através da melhoria no balanço hidrológico, conservação do solo e condições para micro e macro faunas e floras” (Schreiner, 1994).

O Sul da Bahia tem a sua base econômica centralizada na lavoura do cacau e na pecuária extensiva. Em que pese a contribuição desses produtos para o desenvolvimento socioeconômico regional, há de se ressaltar que as crises periódicas causadas pela dependência dessas atividades têm fragilizado os agronegócios vigentes, cujo modelo deve ser reestruturado, através de uma proposta mais consistente, inspirada em sistemas agrícolas auto-sustentáveis, economicamente competitivos e ecologicamente coerentes.

O modelo de agricultura intensiva, baseado principalmente na exploração de monoculturas, não tem proporcionado o equilíbrio econômico necessário ao bem estar das populações rurais e urbanas, e em contraste, tem contribuído para a degradação do meio ambiente, dando origem a agroecossistemas instáveis, por serem utilizados de forma inadequada.

Uma nova postura faz-se necessária na exploração da terra, a fim de possibilitar um modelo de desenvolvimento socio-econômico-ambiental que permita a exploração dos recursos naturais gerando riquezas e bem estar para o homem, sem contudo, degradar o meio ambiente. Uma opção nesse caso é a utilização de sistema de plantio em consórcio que permita o manejo dos recursos naturais através da associação, em uma mesma área, no tempo e/ou espaço, de árvores, arbustos e palmeiras, os quais possam repetir as relações dinâmicas que ocorrem entre as comunidades de um ecossistema natural (Alvim et al. 1989).

Esses sistemas, quando devidamente planejados, possibilitam a melhoria da estrutura dos solos, aumento na disponibilidade de nutrientes, diversificação da produção de alimentos, madeiras e outros produtos úteis ao homem. Adicionalmente, diminuem os custos de implantação dos cultivos, apresentam um fluxo de caixa mais favorável e contribuem para agregação de receitas para o produtor. Em muitos casos, se observam benefícios mútuos entre os consortes, seja no compartilhamento de recursos naturais e exógenos ou na ação reguladora sobre o microclima, pela proteção física dos solos contra efeitos perniciosos do sol, vento e chuvas (Alvim et al. 1989; Canto et al. 1992; Montagnini, 1992).

Na região sul da Bahia diversos consórcios foram estabelecidos pela iniciativa pública ou privada, envolvendo as culturas do cacau, banana, seringueira, cravo-da-índia, pimenta-do-reino, dendê, palmiteiros, coco, fruteiras e cultivos temporários, contudo, visando apenas o componente econômico, em sua maioria. No entanto, outros componentes devem ser observados para a sustentabilidade do negócio, como a) Produtividade, seja de bens de consumo como madeira, frutos, forragem, etc. ou de proteção e serviços (melhoramento da fertilidade do solo, sombreamento e outros); b) Sustentabilidade, refere-se ao aspecto conservacionista do sistema no desenvolvimento rural. Um bom sistema tem o papel de combinar os benefícios da produção a curto e médio prazos com os benefícios conservacionistas a longo prazo, sendo isso possível pelo emprego de espécies arbóreas de uso múltiplo, adequadamente desenhadas e c) Adotabilidade que diz respeito a exequibilidade e adoção por parte daqueles para os quais o sistema se destina. Deve combinar com a estrutural social, condições de infra-estrutura, disponibilidade de mercado, adequabilidade dos insumos, bem como, as crenças e os costumes dos interessados.
Com a crise da cacauicultura regional devido, principalmente, aos preços baixos e a doença vassoura-de-bruxa (Crinipelis perniciosa) que assola os plantios da região, há necessidade de se rever o modelo agrícola adotado até então, para que a região possa retomar seu desenvolvimento. Para tal, sugere-se a implantação da diversificação agroecônomica da região, com base na implantação de cultivos adaptados com ênfase na verticalização da produção, através da agroindústria.

Entretanto, apesar da diversificação agrícola aparecer como uma boa opção para a retomada do desenvolvimento, a simples substituição de culturas baseado apenas no aspecto econômico poderia acarretar danos socioeconômicos e ambientais a médio e longo prazo, sem precedentes, devido às características físicas da região: clima tropical úmido e semiúmido, topografia acidentada e edafologia típica dos solos tropicais (Alvim et al, 1989).

A transformação dos monocultivos regionais em policultivos é uma estratégia importante para o desenvolvimento sustentado da Região. Dentre as diversas possibilidades, a fruticultura tropical torna-se bastante atraente pelas potencialidades comerciais, proteção do solo e como fonte alimentar importante para as comunidades O presente trabalho objetivou disponibilizar informações básicas de algumas frutíferas com potencialidade agronômica para compor sistemas de consórcios no sul da Bahia.

A região está localizada a 41o 30´ de longitude a oeste de Greenwich e entre os paralelos de 13o e 18o 30’. De modo geral, pode-se distinguir o clima regional em duas faixas: uma litorânea com precipitação total anual próximas de 2.000 mm e uma no interior com precipitação inferior a 1.000 mm. Essa variação ocorre de forma gradual a medida que avança em direção ao oeste. As temperaturas se mantém em relativa uniformidade, com média anual de 24 oC, com índices médios mais elevados de 26 oC no verão e nunca inferior a 18 oC, no inverno. A umidade relativa do ar apresenta valores médios de 78 % e de 80, %, na costa. O clima segundo o sistema de classificação de Koeppen, foi caracterizado em quatro tipos: Af: próximo ao litoral, caracterizado por ser quente e úmido sem estação seca definida; Am: faixa localizada de 40 a 70 km da costa é caracterizado pela presença de um período seco (agosto a setembro) que é compensado pelos totais; Aw: de 70 a 140 km da costa, caracterizado por apresentar inverno seco, típico do clima tropical semi-úmido e Bsh: na parte noroeste, região semi-árida.

Considerando as condições climáticas regionais, características de algumas fruteiras tropicais através de revisão bibliográfica e comunicação pessoal foram selecionadas 21 fruteiras (Tabelas 1 e 2) com elevado potencial para uso em consórcios no sul da Bahia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através do conhecimento das características das fruteiras é possível estabelecer a potencialidade para associações entre as mesmas, de modo a otimizar espaço e tempo com os benefícios agronômicos, econômicos, sociais e ecológicos dos consortes, principalmente direcionados para a pequena propriedade e agricultura familiar.

Tabela 1 – Compatibilidade para associações em consórcios entre fruteiras.

Legenda:

 

Boa compatibilidade

 

Compatibilidade regular 

 

Não compatível

Tabela 2 – Características das fruteiras selecionadas para uso em consórcios no sul da Bahia.

FRUTEIRA

NOME CIENTÍFICO

CARACTERISTAS DA PLANTA

ESPAÇAMENTO (m)

USOS

ABACATE

Persea americana

Árvore perene com altura de 8 a 12 m, copa

compacta e arredondada

10 x 10

Fruto e óleo

AÇAÍ

Euterpe oleraceae

Estipe ereto, cilíndrico com 10 a 20 cm

 de diâmetro e até 20 m de altura

2 x 1 palmito

4 x 4 frutos

Fruto e palmito

ACEROLA

Malpighia glabra

Arbusto perene com 2 a 4 m de altura

 e copa compacta

4 x 4 e 4 x 5

Fruto

BANANA

Musa spp.

Herbácea gigante com 3 a 6 m de altura

 3 x 3 e 3 x 4

Fruto rico em K e Ca

CACAU

Theobroma cacao

Árvore perene com copa esgalhada

e altura de 8 a 10 m.

2,5 x 3 e 3 x 3

Fruto

CAJÁ

Spondias mombin

Árvore alta podendo atingir 20 a 25 m

 de altura e copa aberta

9 x 9 e 12 x 12

Frutos

CARAMBOLA

Averrhoa carambola

Árvore perene que pode atingir 8 m de altura

4 x 4 a 6 x 6

Fruto

COCO

Cocos nucifera

Estipe não ramificado com altura

até 10 a 20 m quando adulto

7,5 x 7,5; 8 x 8 e

 9 x 9

Água, copra,

óleos e fibra

CUPUAÇU

Theobroma grandiflorum

Árvore perene que na mata atinge até

 20 m e comercialmente, 8 m de altura

5 x 4 e 5 x 6

Fruto

FRUTA-PÃO

Artocarpus altilis

Árvore de tronco ramificado

que pode atingir até 35 m

10 x 10

Fruto

GRAVIOLA

Annona muricata

Árvore de crescim. ereto, ramificação

 assimétrica podendo atingir 8 m de altura

. 5 x 6 e 6 x 6

Fruto

JACA

Artocarpus heterophyllus

Árvore com copa irregular que

atinge até 25 m de altura

10 x 10

Fruto e madeira

JENIPAPO

Genipa americana

Árvore, caule ereto, ramificação

esparsa e altura de até 15 m

10 x 10

Frutos e madeira

JAMBO

Syzygium malcásense

Árvore de copa densa e

cônica com até 12 m de altura

10 x 10

Fruto

MACADÂMIA

Macadâmia integrifólia

Árvore com até 19 m de

 altura e 13 m de diâmetro de copa

6 x 5 e 6 x 6

Amêndoa e óleo

MANGOSTÃO

Garcinia mangostana

Árvore com 10 a 20 m

de altura e copa densa

10 x 10

Fruto

MELANCIA

Citrullus lanatus

Planta anual, rasteira e ramificada

4 x 4

Fruto

PINHA

Annona squamosa

Arbusto com 2 a 4 m de altura

4 x 4 a 5 x 5

Fruto

PUPUNHA

Bactris gasipaes

Estipe ereto com até 20 m de altura

2 x 1 palmito

4 x 4 fruto

Fruto e palmito

RAMBUTÃO

Nephelium lappaceum

Árvore de 6 a 12 m de altura,

tronco reto e copa aberta

10 x 10

Frutos

SAPOTI

Manilkara zapota

Árvore de tronco ramificado

que pode atingir ata 20 m

7 x 7

Fruto e látex

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, E. J., Cultivo da bananeira da terra. Cruz das Almas. Embrapa, 2001. 176 p.

ALVIM, R.;VIRGENS A. de C. & ARAÚJO, A. C. Agrossilvicultura como ciência de ganhar dinheiro: recuperação e remuneração de capital no estabelecimento de culturas perenes arbóreas. Ceplac, Boletim técnico, 161 1970. 36 p.

ARAÚJO, A. C.de; SILVA, L. M. R.; KHAN, A. S.; LEITE, J. B. V. Viabilidade financeira da produção de frutas na região sudeste da Bahia. Congresso Brasileiro de economia e sociologia rural. Anais, 2001.

CEPLAC, Diagnóstico sócio-econômico da região cacaueira: 1- Solos da região cacaueira, 2- Aptidão agrícola dos solos da região cacaueira. Ceplac, Ilhéus, Bahia, 1975. 179 p.

FALCÃO, de A. M.; LLERAS, E.; CONTE, L. A. M. Aspectos fenológicos, ecológicos e de produtividade, Graviola (Annona muricata L.) na região de Manaus. Acta Amazônica n. 1 p.27-32..1982

LOBÃO, D. E. P. & SANTOS, O. M. Sombreamento definitivo do cacaueiro. Ilhéus:
MORTAN, J. F. The soursoup, or guanábana (Annona muricata L.). Proccedings of the Florida Satte Horticultural Society. V 79. p. 76-95, 1996;

NAIR, P. K. R. An introduction to agroforestry. Kluwer Academic Publishers, Dordrecht. 1993. 499 p.

RODRIGUES, A. N. A. ; COSTA, J. N.; RAM, A. R.; SÁ. C. P. VENEZIANO, W. MELO JÚNIOR, R. S. Sistemas agroflorestais como alternativa auto-sustentável para o Estado de Rondônia. I - Histórico. Aspectos agronômicos e perspectivas de mercado. PNUD/Governo de Rondônia. 1995, 59 p.

SACRAMENTO, C. K. & SOUZA, F. X. de Cajá (Spondias mombin L.) Jaboticabal: Funep, 2000 42 p. (Série Frutas Nativas, 4).

SANTOS, C. A. F.; NASCIMENTO, C. E.de S.; ARAÚJO, F. P. de Avaliação do umbuzeiro como porta-enxerto de algumas espécies do gênero Spondias. Fortaleza: Embrapa- CNPAT, 1999. 5p. (Pesquisa 91).

SCHREINER, H. G. Pesquisa em agrossilvicultura no Sul do Brasil: resultados, perspectivas e problemas. CONGRESSO BRASILEIRO SOBRE SISTEMAS AGROFLORESTAIS, 1., v. 2. Porto Velho. Anais...Colombo: EMBRAPA-CNPMF. 1994. pp. 387-398. 496 p. agrofloresta, ecologia, simulação, sustentabilidade, sociologia, delineamento agrofloresta 2

SOUZA, F. X. Spondias agroindustriais e os seus métodos de propagação. Fortaleza: Embrapa – CNPAT/Sebrae/CE, 1998. 28p. (Documentos 27).
VILLACHICA, H. Ubos (Spondias mombin L.). IN: VILLACHICA, H. Frutales y hortalizas promisorios de la Amazonia. Lima: Secretaria Pro-Tempore/Tratado de Cooperación Amazonica, 1966. p.270-274.

VINHA, S. G. S. & MATTOS, L. A. Árvores aproveitadas como sombreadoras de cacaueiros no Sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Ilhéus: Ceplac/Cepec, 1982. 136 p.

 

José Basilio Vieira Leite - Pesquisador do Centro de Pesquisas do Cacau
Rodrigo Dias Lins - Mestrando da UFBA, Bolsista CAPES
Edivânia Sousa Vieira - Engo Agro Bolsista do Centro de Pesquisas do Cacau