Uso Popular de Plantas Medicianis na Região Cacaueira da Bahia. Bairro de São Miguel, Ilhéus

 

O conhecimento da medicina tradicional, referente ao uso de plantas medicinais, atravessou milênios, passando de uma geração à outra, contribuindo na cura e prevenção de muitas enfermidades em grupos culturalmente definidos e renasce à luz da ciência moderna despertando o retorno da relação do homem com a natureza, numa era de novas descobertas e inovações tecnológicas em medicina e produtos químico-terapêuticos, nos centros urbanos.

É relevante, diante desse contexto histórico de uso e tradição em medicina popular, a realização de um estudo integrado em etnobotânica, etnofarmacologia e química das espécies vegetais que encerram princípios ativos, bem como para aquelas ainda desconhecidas. Dessa forma o conhecimento popular respaldado pelo conhecimento científico, contribuiu para o uso racional de espécies medicinais e a conscientização acerca da importância de conserva-las para as gerações futuras.

O objetivo principal deste trabalho foi o de resgatar o conhecimento em medicina tradicional com a utilização racional de plantas com fins terapêutico, propondo o uso sustentável dessa fonte natural de recursos, como subsídio para uma maior disseminação da prática da fitoterapia. Além disso, visou caracterizar um perfil farmacológico, terapêutico e botânico para uma comunidade urbana localizada em Ilhéus, na região cacaueira da Bahia.

Para realização dessa pesquisa, adotou-se alguns métodos de trabalho: entrevistas estruturadas e semi-estruturadas,e observação participante. Realizou-se ainda levantamento bibliográfico das famílias e espécies botânicas que tiveram maior representatividade para a comunidade em estudo.

Foram então citados, pela população em estudo, 127 plantas com finalidade terapêutica, sendo apenas 110 coletadas e identificadas. As entrevistas resultaram em 904 citações com indicações de receitas de remédios caseiros para tratamento de sintomas de doenças, elaboradas a partir de plantas.

Objetivando ainda realizar um levantamento bibliográfico das espécies mais citadas por essa comunidade, constatou-se conforme pesquisas realizadas no Brasil e em diversos lugares do mundo, que as plantas utilizadas pela comunidade do bairro São Miguel tem finalidade terapêutica comprovada, conforme seja:

O óleo essencial extraído da Lippia Alba (erva-cidreira) apresenta atividade anticonvulsiva como também apresenta propriedades bactericida e antisséptica. O extrato etanol-aquoso dessa planta foi testada em ratos e apresentou efeito analgésico significativo.

O Chenopódium ambrosioides (mastruz, mastruço,erva-de-santa-maria) tem atividade polivermicida, emenagoga e abortiva. Em pesquisa na Bahia constatou-se sua eficácia no tratamento de lesões causadas por Leishmania. Essa planta também foi testada no tratamento de doença pulmonar causada por Mycobacterium tuberculosis e os resultados foram promissores.

O capim-santo, Cymbopogon citratus, segundo levantamentos bibliográficos, apresentou efeito analgésico, hipotensivo, e levemente diurético e antiinflamatório quando testados em ratos e camundongos.

A Vernonia condensata, conhecida popularmente como alumã, também foi testada e apresentou atividade analgésica e citoprotetora da mucosa gastrointestinal, sendo essa última atividade conferida pelo uso popular em sintomas de doenças do aparelho digestivo.

O levantamento bibliográfico realizado em pesquisa científica e comparado ao levantamento etnobotânico e etnofarmacológico realizado na comunidade do São Miguel em Ilhéus, registra um perfil terapêutico, farmacológico, botânico da medicina tradicional para uma comunidade urbana localizada na região cacaueira da Bahia.

 

Núbia Regina Silva Santos