Um breve painel sobre os produtos orgânicos e a agroecologia

A agroecologia é uma alternativa ao modelo convencional de agricultura, o qual se tornou insustentável devido ao uso intensivo do solo, à monocultura, à aplicação indiscriminada de fertilizantes inorgânicos e de pesticidas, dentre outros fatores, que retiraram e degradaram os recursos naturais. Em contraste com essa agricultura convencional, a agroecologia representa na prática um modelo viável de produção animal e vegetal, baseado em tecnologias que atendem aos princípios de produtividade, rentabilidade e qualidade do produto além de considerar sobremaneira os aspectos sócio-ambientais. Essa mudança do modelo convencional para o agroecológico está em transição em várias partes do Brasil. Entretanto, o mercado de produtos orgânicos - isto é: produtos sem agrotóxicos ou adubos químicos e com a preocupação de preservar o meio ambiente - já está consolidado e vem crescendo em todo o país. Conforme dados do ITC (Centro Internacional do Comércio) o valor da produção orgânica em 2001 foi estimado em US$ 150 milhões. Já em 2003, o mercado brasileiro de orgânicos faturou em torno de US$ 200 milhões. O grande potencial dos produtos orgânicos, que tem sua produção alicerçada em alguns fundamentos agroecológicos, pode ser demonstrado pelo mercado mundial, que segundo a IFOAM (Federação Internacional para Movimentos da Agricultura Orgânica) atingiu em 2002 a cifra de US$ 23 bilhões. O mercado doméstico brasileiro é um dos mais desenvolvidos na América Latina sendo os produtos orgânicos vendidos principalmente nos supermercados e nas feiras livres da região sul e sudeste. Entretanto, esse mercado é ainda insipiente quando comparado com os mercados europeu e norte-americano que detêm juntos 97% de tudo que é comercializado de produtos orgânicos no mundo (Willer & Yussefi, 2004).

O governo brasileiro vem adotando algumas iniciativas que visam incentivar a produção orgânica através, por exemplo, de financiamentos do Banco do Brasil e BNDES. No Plano Safra 2004/2005 está previsto o sobreteto de 50% do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) que contempla agricultores familiares que estão em transição para agroecologia, além do Pronaf Florestal, uma linha de crédito destinada a projetos de manejo sustentável de uso múltiplo e sistemas agroflorestais (Brasil, 2004). Além dessas modalidades de crédito específicas para área agroecológica vale citar as pesquisas, por exemplo, da Embrapa que tem desenvolvido alguns projetos sobre agricultura ecológica em colaboração com produtores. Em uma análise geral sobre o panorama da agricultura orgânica mundial, o relatório da SÖL (Fundação Agricultura e Ecologia da Alemanha) informa que o Brasil tinha no ano de 2003, 19.003 propriedades e 841.769 hectares sob manejo orgânico (Willer & Yussefi, 2004) o que coloca o país em 5º lugar na lista dos países com maior área plantada sob cultivo orgânico (Fig. 1).


 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1. Os dez países com maiores áreas sob manejo orgânico no mundo. (Extraído e modificado de Willer & Yussefi, 2004).

No país os estados do Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo e Santa Catarina foram os pioneiros na produção orgânica e é nesses estados que ainda hoje se concentra cerca de 90% da produção. Na Bahia não há dados oficiais sobre o número de produtores orgânicos e nem da área total plantada, entretanto vale salientar que já existem produções orgânicas de diversas frutas e hortaliças além de carne bovina e caprina, cachaça e leite. Na região sul da Bahia algumas propriedades têm certificação e a atuação de ONGs, como o Instituto de Estudos Sócio-Ambientais (IESB) o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP) e cooperativas como a COOPERUNA e a CABRUCA tem auxiliado na implantação de sistemas agroecológicos (e de Sistemas Agro-Florestais inclusive). No estado da Bahia grande parte da produção de orgânicos destina-se ao mercado externo, outra parte é comercializada em lojas de produtos naturais e feiras, e apenas uma pequena parcela destina-se aos supermercados e à entrega domiciliar de "cestas" (Olalde & Dias, 2004). Todavia, mais do que um promissor mercado a ser explorado, a adoção de fundamentos agroecológicos visa incrementar a qualidade de vida do produtor buscando um ambiente (a propriedade rural, por exemplo) mais equilibrado em seus aspectos físicos e biológicos, tornando a produção agropecuária sustentável. Para tanto a agroecologia aplica conceitos e princípios ecológicos no manejo de agroecossistemas sustentáveis. Estes, por sua vez, são comunidades de plantas, animais e microorganismos interagindo com o ambiente e que são modificados pelo homem para o seu consumo. A adubação verde, o uso de resíduos de culturas como fonte de matéria orgânica para o solo, o controle biológico, o cultivo consorciado e o aumento da diversidade de espécies no agroecossistema, são algumas das práticas recomendadas dentro do enfoque agroecológico de produção. Soma-se a isso a preocupação com os fatores sociais, onde o componente humano é valorizado, buscando tecnologias participativas de múltiplo propósito que gerarão a autonomia do produtor e sua auto-suficiência.

A agricultura orgânica na Bahia está sendo implementada em diversas regiões e tem atraído considerável interesse dos produtores, entretanto o sistema de comercialização dos produtos ainda é pouco organizado, o que pode ser comprovado pelo baixo volume de produção, irregularidade da oferta e pouca variedade de produtos (Olalde & Dias, 2004). A cadeia produtiva e o mercado local precisam ser fortalecidos e incentivados. A agroecologia, como ciência que estuda a sustentabilidade dos sistemas agrícolas em todos os seus aspectos, nos lembra de que além da preocupação com a qualidade do produto e do ambiente, as questões sociais devem ser observadas.

Literatura Citada

Brasil. Ministério do desenvolvimento Agrário. 2004. Plano Safra 2004/2005. 14p.

Willer, H. & Yussefi, M. 2004 The World of Organic Agriculture - Statistics and Emerging Trends. 167p.

Olalde, A.R. & Dias, B.O. 2004. Agricultura orgânica e agroecologia na Bahia: Atores e experiências. In Uzêda, M.C. (ed). O desafio da agricultura sustentável: alternativas viáveis para o sul da Bahia. Ilhéus: Editus, pp. 71-96.

 

Eduardo Gross
Prof. do Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais
Universidade Estadual de Santa Cruz