ORGANIZAÇÃO SOCIAL RURAL

Normalmente, o que motiva o ser humano a se organizar é a necessidade de enfrentar desafios.

Os processos de organização social no campo estão em grande parte relacionados ao enfrentamento de desafios. Tais desafios podem ser entendidos sob diversas formas: luta pela terra, reivindicação de crédito e assistência técnica para a produção, melhoria da infra-estrutura (estradas, eletrificação), garantia dos serviços sociais básicos (educação e saúde), dentre outros.

A organização social rural pode ser traduzida sob formas específicas, conforme o período da história em que ocorrem e pelo objetivo que motiva esta organização. Dessa forma, fazendo um rápido passeio na história do Brasil, temos como exemplos, importantes movimentos de organização como as Colônias no sul do Brasil, constituídas em sua maioria por imigrantes europeus, as Ligas Camponesas no nordeste, em especial em Pernambuco e bem anterior os Quilombos e o movimento de Canudos, este especificamente no Sertão Baiano.

Todos estes processos de organização social rural serviram como referência para que formas de organizações mais atuais se constituíssem, tais como Associações Rurais, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, Cooperativas Rurais e os movimentos de luta pela terra, dentre eles o MST.
Dentre essas formas de organização, destacamos as Cooperativas Rurais.

No Brasil, os relatos sobre o cooperativismo dão conta de que as primeiras cooperativas agropecuárias sugiram no ano de 1907. Na Bahia como em qualquer outro lugar, existem experiências de sucesso e insucesso no Cooperativismo. Muitas vezes as experiências fracassadas dificultam o ressurgimento e avanço de novas experiências em cooperativismo.

Na região cacaueira temos algumas situações desse tipo e apenas para citar, o exemplo da COPERCACAU e outros exemplos menores como o da CAMUR no município de Una, dentre outros. Evitaremos aqui, a pretensão de analisar os dois exemplos mencionados, entretanto o que se pode perceber é que em regiões onde o sentimento de organização social está condicionado apenas a solucionar aquele problema imediato, por exemplo, apenas a conquista da terra, o crédito ou demandas mais imediatas, sem um sentimento coletivo de meta de longo prazo, tem levado ao insucesso de muitas experiências de organização social e não somente de formas de organização como Cooperativas, mas também Associações e Sindicatos.

Para ilustrar o que acabamos de mencionar, citamos o caso de diversas Associações Rurais formadas apenas para a obtenção de crédito ou outro benefício governamental, como uma casa-de-farinha, um trator e coisas do gênero.

Retomando o caso do cooperativismo, na atualidade enfrentamos além da falta de um sentimento mais forte de construção coletiva de longo prazo, uma realidade econômica violentamente opressora, que pouco valoriza o trabalho do campo. A luta pela sobrevivência neste contexto impõe cada vez mais atitudes individualistas, reforçadas pelo imediatismo imposto pelas necessidades da população.

As necessidades imediatas da população no meio rural são elementos que favorecem o surgimento de uma organização social. De modo contraditório essas necessidades imediatas, uma vez atendidas, ou seja, mesmo que o desafio seja superado de forma incompleta, podem levar ao enfraquecimento ou total paralisação de uma organização social. Outros elementos que ajudam enfraquecer uma organização social rural são: a) a conquista de algum resultado, sem uma ação coletiva e solidária das pessoas que constituem aquela organização social; b) a ação política eleitoreira de indivíduos que estão mais interessados em si mesmos; c) a ação corrupta de supostas lideranças, etc..

Tudo o que já foi descrito até o momento se transforma em novos desafios para a organização social rural. Retomaremos o exemplo do cooperativismo com um breve relato da experiência atual da Cooperativa dos Produtores Rurais de Una, a COOPERUNA.

Esta Cooperativa nasceu da necessidade de superação de dois desafios enfrentados à época, por agricultores do município de Una. O primeiro desafio era a comercialização direta de seus produtos, livrando-se das amarras dos intermediários (atravessadores) e o segundo desafio, uma maior disponibilidade de assistência técnica em suas propriedades.

Entretanto desde o momento de sua criação, a COOPERUNA já nascia frágil, pela pouca clareza de seu corpo de filiados e filiadas, em relação a uma meta de longo prazo para o projeto de cooperativismo que acabavam de iniciar e também, pela pouca compreensão acerca de cooperativismo. Ao longo desses quase cinco anos de existência dessa Cooperativa, percebe-se que a mesma nascia como sendo uma “tábua de salvação” para os desafios ali então apresentados, trazendo consigo a presença de outras Instituições que “certamente” entrariam com todo o apoio necessário para implementação da Cooperativa. Em outras palavras, essas Instituições garantiriam a base mínima para que a COOPERUNA iniciasse a comercialização de seus produtos, oferecendo o melhor preço e outras vantagens que até ali não existiam, tais como adiantamento de compra da produção. De certa forma, a COOPERUNA, após a sua fundação, obteve um apoio importante de pelo menos duas Instituições: da Prefeitura Municipal de Una através de sua Secretaria de Agricultura, com a sessão de um imóvel por mais de três anos para se instalar e do IESB com a contratação de dois profissionais para o suporte técnico à comercialização e assistência técnica, um veículo utilitário a serviço da Cooperativa na maior parte do tempo, equipamentos e mobiliário e recursos financeiros para iniciar o processo de comercialização.

Entretanto, a COOPERUNA teve grandes dificuldades no processo de comercialização. Tal dificuldade não se traduziu na ausência de produtos, mas sim, na falta de capital de giro e adicionalmente, na pouca fidelidade dos seus filiados para com a Cooperativa. Essa dificuldade foi naquele momento e continua sendo até hoje, uma combinação de alguns fatores: a) a inexistência de um projeto consciente e coletivo de longo prazo, por parte dos agricultores, para o desafio da comercialização e da valorização de seu trabalho no campo; b) o elevado grau de empobrecimento de muitas famílias no meio rural, o que lhes dificulta seguir a lógica de comercialização via Cooperativa; c) a desinformação dos agricultores referente ao cooperativismo; d) a pouca disponibilidade de lideres para a gestão da Cooperativa; dentre outros.

Apesar do enfrentamento de tantos desafios, lições são apreendidas todos os dias. Enquanto uma forma de organização social, a Cooperativa precisa se comportar de forma profissional para que neste contexto de globalização, possa estar preparada para enfrentar tanto os atuais desafios que serão gradativamente superados, quanto os novos desafios.

Neste sentido a COOPERUNA tem feito um esforço. A Cooperativa realizou avanços importantes desde a sua fundação, embora ainda requeira uma ação continuada para implementação e consolidação de uma gerência administrativa, financeira e contábil que oriente suas lideranças e ao mesmo tempo possa responder às exigências da legislação fiscal estabelecida para as sociedades cooperativas. A partir deste momento, no qual a COOPERUNA passa a ser exigida na regularidade de suas contas e nos procedimentos comerciais e fiscais, tem sido decisivo um suporte mais efetivo de uma gerência administrativa e comercial de forma a reduzir a fragilidade diante dos rigores da legislação. Estes esforços permitiram a comercialização de 30 toneladas de cacau, 45 toneladas de pimenta do reino e 12 toneladas de guaraná em 2002, dando a COOPERUNA um status de segundo maior exportador de especiarias de Una, naquele ano.

Complementar a esta experiência, a busca de uma unificação comercial com cooperativas similares presentes no Baixo Sul da Bahia, criando uma Cooperativa Central, denominada CCES – Cooperativa Central de Empreendedores do Sul da Bahia, ressalta um dos princípios do cooperativismo, ou seja, a cooperação entre cooperativas, fortalecendo cada uma das cooperativas participantes, servindo como processo educativo e ao mesmo tempo, sugerindo a COOPERUNA, num cenário de médio e longo prazo, o papel de protagonista de algumas ações no campo do desenvolvimento institucional, mercados e desenvolvimento rural sustentável, que poderão ser irradiadas para além das fronteiras do município de Una. Entretanto, vale ressaltar que o fortalecimento da COOPERUNA no aspecto específico dos mercados, apesar de alguns esforços que vêm sendo desenvolvidos, ainda carece de aportes monetários pontuais e de uma gerência comercial que ajude a diretoria na busca e conquista de mercados para seus produtos. Na atualidade e neste contexto, comercializar sem um aporte significativo em capital de giro e sem um suporte gerencial significa manter a COOPERUNA com baixa capacidade competitiva em relação às empresas concorrentes locais.

O relato sobre a COOPERUNA, enquanto uma experiência de organização social rural na região cacaueira, serve apenas para refletir o quanto é grande o desafio de se estabelecer qualquer forma de organização social, quando os principais beneficiários não têm a consciência e a clareza de para onde desejam seguir e o que estão dispostos a enfrentar de forma solidária e compartilhada. Pensar a organização social, qualquer que seja a sua forma, num horizonte de longo prazo e integrada aos objetivos comuns das pessoas que formam a base dessa organização continua sendo um grande desafio.

 

Texto elaborado para a 26ª Semana do Fazendeiro, Uruçuca - Bahia, por Luís de Lima Barbosa, Coordenador do Núcleo de Políticas Públicas do IESB.
Entendido como o meio rural.