POTENCIAL DE UTILIZAÇÃO DA FIBRA
E SUBPRODUTOS DA PIAÇAVEIRA

INTRODUÇÃO

Os primeiros relatos sobre a piaçaveira remontam à chegada dos portugueses ao litoral baiano, durante o Descobrimento do Brasil, descritos na Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal e passados vários séculos de utilização da fibra de piaçava na fabricação de amarras para navios, progrediu seu uso com a confecção de vassouras domésticas e industriais, surgindo, recentemente, empregos como isolante térmico, material para coberturas de casas, áreas de laser e quiosques de praia, na construção civil e na industria de compostos de borracha, substrato para floricultura e extração de polímeros. Além disso, os frutos e sementes podem ser usados na indústria de cosméticos e na alimentação, respectivamente com a extração do óleo da amêndoa e processamento artesanal do mesocarpo do fruto visando a fabricação da farinha satim, esta última, considerada fonte de nutrição de populações ribeirinhas de descendentes de escravos e índios.

Até o final da década anterior, a exploração comercial da fibra da piaçava no Brasil se limitava apenas à exploração extrativista dos piaçavais existentes no litoral da Bahia, cuja produtividade é extremamente baixa, mas a oferta de matéria-prima nesta época supria a demanda do mercado local e nacional, cuja importância estava centrada na produção e comercialização da vassouras para fins domésticos, principalmente nos Estados do Centro e Sul do País, prosseguindo com o uso do óleo na culinária local, além do emprego do endocarpo do fruto como matéria-prima na fabricação de botões, cachimbos, empunhaduras de bengalas, maçanetas e na industria de carvão ativado.

O Estado da Bahia é o único produtor de fibras de piaçava (Attalea funifera Mart.) do Brasil, cuja produção foi estimada em 697.533 @ de fibras, em 2002, as quais foram provenientes de uma área de 32.028 ha de piaçavais e envolviam 1.847 produtores distribuídos em treze municípios do litoral Sul da Bahia. Estas áreas são formadas por palmeiras não selecionadas, cujas produções são obtidas, na sua maioria, de forma extrativista, razões pelas quais a piaçaveicultura apresenta rendimento bastante variável em comparação com a estimativa da produtividade de 200 @/ha esperada nos plantios tecnicamente formados.

O aumento da produção nacional e a maior participação da fibra de piaçava na composição da produção brasileira, a qual responde por 95% do total, pode ser obtida com a implantação de piaçavais no sistema agroflorestal, no repovoamento ou enriquecimento florestal de áreas da Mata Atlântica, visando a inserção de tecnologias no processo produtivo do agronegócio piaçava, trazendo melhorias sociais aos produtores rurais.

O processo de produção e beneficiamento da fibra, de forma tipicamente extrativista e artesanal, se caracteriza pela exploração individual ou em regime de meação e parceria. A atividade piaçaveícola é basicamente familiar existindo pouca forma de organização empresarial. Embora tradicional, mas em conformidade com a realidade regional, a atividade detém importância sócio-econômica muito grande, pois se constitui num fator de geração de emprego e renda para a região, permanecendo até os tempos atuais.

A região Sudeste da Bahia apresenta uma zona de aptidão climática para o cultivo da piaçaveira com clima Af de Koppen, quente e úmido, com precipitação pluvial acima de 1400 mm, sem estação seca definida, temperatura média de 24ºC, umidade relativa superior a 80%, correspondendo a uma faixa litorânea no sentido Norte-Sul, com largura variável em relação ao Oceano Atlântico.

Desta forma, o litoral sul baiano possui condição climática e edáfica com solos leves e bem drenados, excepcionais para o cultivo da piaçaveira em bases técnicas e racionais, possibilitando, assim, expressivas margens de lucro com a comercialização da produção e agregação de valor com a inserção destes produtos em nichos de mercado e melhoria das condições produtivas através da utilização de equipamentos para beneficiamento e sistematização de processos e aproveitamento de resíduos e de parte das plantas atualmente não utilizadas, mas que apresentam potencialidade para a indústria de manufaturados e artesanato.

POTENCIALIDADES
A atividade piaçaveícola tende a crescer em virtude da necessidade de mudança da relação de mercado entre os produtores de fibra e beneficiadores, realizadas através da compra do produto pelos intermediários, devendo passar os agricultores a processarem sua produção em conjunto, via instalações de unidades artesanais de fabricação de vassouras ou através de cooperativas e associações, com a realização da venda de fibra padronizada para outros Estados ou para exportação, que alcançam preços elevados nos mercados interno e externo.

A padronização da fibra para comercialização direta na indústria requer a identificação de mercado seletivo e preparo do produto com qualidade superior, de acordo com a necessidade do cliente em relação, por exemplo, ao comprimento da fibra, permitindo, nestes casos, atingir-se até três vezes mais o valor pago pela arroba de piaçava, quando comercializada no sistema atual de venda nas fazendas ou entrepostos de intermediários.

Outra alternativa para obtenção de valor agregado da produção refere-se à fabricação de “pentes” de piaçava, que são estruturas de madeira e borra, utilizadas em coberturas na construção civil.

Na Bahia, a produção de fibras de piaçava é conduzida, na maioria dos casos, sob baixo impacto tecnológico, em face da ausência de práticas de manejo dispensadas ao piaçaval, notadamente aquelas referentes aos procedimentos e cuidados durante a operação de colheita. Por esta razão, a situação da piaçaveicultura necessita de forte intervenção tecnológica, mudanças na forma de abordagem ao produtor e de transferência de tecnologia, levando informações sobre as questões da sustentabilidade do cultivo e atenção voltada para os agricultores familiares, uma vez que a piaçava, dentre todas as palmeiras produtoras de fibras exploradas comercialmente, é considerada a mais importante, de maior produtividade e o seu principal produto – a fibra, carateriza-se por ser longa, inelástica com alta flexibilidade e impermeabilidade.
Neste sentido, tem-se como oportunidade somar a experiência da CEPLAC no que se refere à condução de pesquisas sobre ocorrência natural da planta e vegetação associada aos resultados obtidos com a propagação de material botânico para plantio, recomendação de sistemas de manejo, assistência técnica aos produtores e conhecimento da realidade regional. Assim sendo, a piaçaveira se presta para o aproveitamento como planta componente de sistemas agroflorestais e de recomposição vegetal de áreas, sendo considerada uma das mais importantes na recuperação de espaços degradados.

Estas ações reduzirão as pressões sobre a restinga e remanescentes florestais nos limites da Mata Atlântica, criando-se novos empregos com a disseminação massiva do processo de formação de mudas e conseqüente geração de renda, e melhorias das condições de vida das comunidades envolvidas, através da venda do material propagativo, notadamente em áreas abrangidas pelo Corredor Central da Mata Atlântica do Projeto - Corredores Ecológicos.

Um dos resultados mais importantes obtidos nos últimos anos, refere-se à técnica de germinação das sementes em condições controladas de laboratório e até 100% de germinação, quando se utiliza a temperatura de 30ºC, substrato inerte umedecido e sementes colhidas antes do início da queda dos frutos.

Estima-se que um hectare de piaçaveiras safreiras possa produzir, em média, 12,3 milheiros de sementes, que comercializadas ao preço de até R$ 60,00/ milheiro resultaria em um acréscimo de renda ao produtor da ordem de R$ 738,00/ha ou em economia de recursos financeiros, caso seja o próprio usuário da semente destinada a formação de mudas para implantação de piaçavais ou comercialização, uma vez que existem poucos agricultores dedicando-se à produção de material botânico.

Os recentes avanços conseguidos com relação ao processo de produção de sementes de piaçaveira têm levado à seguinte recomendação: colheita dos frutos no período da pré-dispersão, evitando-se o ataque de bruquídeos quando as sementes são recolhidas no chão; antecipação do período de colheita entre 60 a 90 dias antes da queda natural dos frutos; padronizar o teor de água das sementes colocando em embebição por um período mínimo de 24 h e colher lotes de sementes em separado visando melhor controle da qualidade.

A antecipação da colheita das sementes traz a oportunidade de melhor utilização do mesocarpo do fruto para fabricação da farinha satim, uma vez que no procedimento adotado anteriormente de colheita dos frutos, no início do período de desprendimento do cacho, verificam-se perdas da qualidade por deterioração e desidratação da casca.

Para melhoria das etapas do agronegócio piaçava, nova visão deverá ser despertada em relação à produção de fibras para fins industrias, bem como o aproveitamento integral dos seus subprodutos na agroindústria e no artesanato, envolvendo a participação direta dos parceiros da cadeia produtiva, orientação e assistência técnicas no cultivo e na forma de organização do produtor, visando o uso sustentável desta palmeira, produção de material botânico de plantio para novas áreas, recuperação de espaços degradados, com o reflorestamento de áreas alteradas e repovoamento ou enriquecimento vegetal, estabelecendo-se modelos de produção agroflorestal em áreas que concentrem a agricultura familiar, notadamente em assentamentos agrários localizados em áreas de exploração da piaçaveira, como em locais tradicionais de manutenção do cultivo, assegurando-se, via produção e transformação da fibra e de seus subprodutos, em fonte de geração de emprego e renda para essas comunidades.

USOS RECENTES

O aproveitamento de fibras vegetais tem sido objeto de estudo não só pela disponibilidade com pelas características que apresentam em cada uma delas.

No caso da fibra de piaçava, os resíduos do beneficiamento e limpeza e separação da fibra principal podem ser empregados no preparo de substrato para a floricultura tropical, na composição de aglomerados para isolamento térmico e compostos com látex de seringueira ou espuma na indústria automotiva e na extração de substâncias químicas da fibra para a área biomédica, como membranas de permeabilidade seletiva.

O endocarpo do fruto ou casca da semente – considerada como marfim vegetal, vem sendo bastante empregada na confecção de acessórios como anéis, brincos e pulseiras, inclusive adornados com ouro e prata em grandes joalherias. Além disso, já existem industrias que usam o endocarpo como matéria-prima na fabricação de carvão ativado para velas de filtros de água.

BIBLIOGRAFIA

MELO, J.R.V., SOUZA, J., NAKAGAWA, J. SILVA, L.A.M., MORI, E.S. Perspectiva da produção de sementes de piaçava (Attalea funifera Mart.) em áreas litorâneas do Estado da Bahia. In: VI CONGRESSO E EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL SOBRE FLORESTAS, 2000. Porto Seguro. Resumos técnicos. Rio de Janeiro: Instituto Ambiental Biosfera, 2000. p. 157-159.

 

José Roberto Vieira de Melo
Eng. Agrônomo, Ds. CEPLAC/CEPEC/SEFOP