A Agroecologia Enquanto Ciência
Aplicada a Realidade Agrária Regional

Introdução

Há algum tempo a região cacaueira da Bahia vem passando por uma crise em seu setor agrícola, que por vários motivos acabam por atingir os aspectos sociais, econômicos e ambientais da mesma, levantando uma serie de questionamentos em nossa sociedade a cerca do padrão produtivo utilizado até hoje para a cultura do Cacau e despertando preocupações no setor social, quanto à viabilidade deste modelo para a Agricultura Familiar e Reforma Agrária, e ambiental a cerca da conservação dos remanescentes de mata atlântica de alta diversidade de espécies, que necessitam ser conservados aliando interesses da biologia da conservação com os da Agricultura sustentável que seriam segundo Gliessman (2001) “Manter a produtividade dos ecossistemas; a biodiversidade e limitar práticas ambientalmente destrutivas” visando o desenvolvimento sustentável.

Em se tratando do cacau ser uma cultura com a peculiaridade de ser plantada sob copa de arvores da mata atlântica, sistema conhecido como cabruca ou sob a copa de plantas exóticas, no caso a Erytrina sp. sistema conhecido como derruba total a abordagem agroecológica se torna essencial para analisarmos o atual padrão produtivo e a construção de um novo modelo, com maior sustentabilidade.

Ao se deparar com esta realidade, vemos que ela vem sendo construída, em função da comprovada não sustentabilidade do modelo relativo a revolução verde, baseado em altas conversões energéticas de insumos exógenos ou externos ao sistema (agrotóxicos e fertilizantes sintéticos), que de forma geral, levou a uma menor eficiência energética da agricultura e dependência do Agricultor, processo conhecido como substitucionismo e apropriacionismo do processo de produção agrícola, por outro levou a uma maior produção de alimentos, mas não acabou como prometia com a fome no mundo, surge então a agroecologia como uma disciplina cientifica que estuda os sistemas agrícolas sob a perspectiva ecológica e sócio – econômica, abarcando e aplicando uma serie de conceitos que nos permitem avaliar a agricultura, inserindo todos os aspectos do chamado desenvolvimento sustentável.

Aplicando conceitos

Um primeiro aspecto a discutirmos e que nos daria uma idéia da importância de usarmos a ecologia como ciência básica nesta discussão, seria a não adequação de alguns conceitos empregados de forma generalizada pela Agricultura convencional, um destes termos que costumamos sempre ouvir é a competição entre espécies, ou a competição de “ervas daninhas” em relação à cultura principal, vale notar que a classificação aceita no meio acadêmico, para explicar a interação entre espécies em um sistema é a definida por Odum.(tabela 1).

Tabela 1.
Tipos de interação entre duas espécies, como definido por Odum, 1971.

 

Interagindo

Não interagindo

 

Interação

Espécie A

Espécie B

Espécie A

Espécie B

implicações

Neutralismo

0

0

0

0

Nenhum organismo afeta o outro

Competição

-

-

0

0

A e B afetados negativa

mente

Mutualismo

+

+

-

-

Interação obrigatória

Protocooperação

+

+

0

0

Interação não obrigatória

Comensalismo

+

0

-

0

A beneficiado pela presença de B, para B indiferente a presença de A.

Amensalismo

-

0

0

0

A prejudicado pela presença de B, para B indiferente.

Parasitismo

+

-

-

0

A parasita, B hospedeiro.

Predação

+

_

-

0

A predador, B presa.

+ crescimento aumentado / - crescimento diminuído / 0 crescimento não afetado / adaptado de Gliesman, (2001).

No entanto nos bancos escolares da Agronomia e outra ciências correlatas, os professores e/ou pesquisadores não se cansam de repetir que as “ervas daninhas” competem com a cultura explorada comercialmente, embora no mutualismo quando duas espécies estão presentes as duas saem ganhando, (A+,B+) como mostrado na tabela 1.

Alias não precisamos ir muito longe, no caso do Cacau a sua interação com a Erytrina ou com as espécies nativas da Cabruca, em sua maioria ou principalmente, é uma interação de Comensalismo, pois há um ganho em termos de crescimento para o Cacau, que é protegido da alta insolação, além da Erytrina ser uma leguminosa que fixa nitrogênio do ar e o deposita no solo através de suas folhas, sendo o Cacaueiro melhor nutrido, no entanto para a Erytrina é indiferente a presença ou não do Cacaueiro.

Dentro desta primeira abordagem, já podemos dizer que a competição não é uma questão obrigatória entre indivíduos de espécies diferentes, sendo mais comuns entre indivíduos da mesma espécie, por possuírem o mesmo papel trófico (alimentar) ou mesma função no agroecossistema definido como local e função de uma espécie no ambiente; pela sua utilização de recursos ou demanda nutricional.

Sendo este um primeiro conceito a ser levado em consideração, quando do planejamento de um agroecossistema sustentável, pois quanto mais conhecemos o nicho ecológico e a interação entre as espécies que queremos trabalhar nos sistemas, mais chances temos, de otimizar os recursos, principalmente solo, luz, água e ar.

Outro conceito importante, esta relacionado aos diversos tipos de diversidade e os objetivos que eles tem no estabelecimento e manejo dos agroecossistemas, veja a tabela 2.


Tabela 2.

Tipos de diversidade

Descrição

Espécies

Número de espécies no sistema

Genética

Grau de variabilidade genética

Vertical

Número de camadas ou níveis

Horizontal

Padrão de distribuição espacial

Estrutural

Número de locais de nichos ou papel trófico

Funcional

Complexidade de interação, fluxo de energia e matéria.

Temporal

Mudanças cíclicas

Neste aspecto podemos esperar da presença dos vários tipos de diversidade o surgimento de propriedades emergentes que conforme definido Por Gliessman (2001): “Uma característica de um sistema que deriva da interação de suas partes e não é observável ou inerente às partes quando consideradas separadamente”, assim uma maior diversidade de espécies podem nos levar a um sistema alimentar mais diversificado, genética a uma menor vulnerabilidade em termos de pragas, doenças, geadas, secas, etc, a estrutural, funcional e temporal a uma otimização maior dos recursos naturais e humanos, como conseqüência, podemos ter sistemas com algumas características que nos levam a uma maior sustentabilidade social, ambiental, econômica e energética.
De forma geral os benefícios de uma maior diversidade são: interferências benéficas entre espécies, melhor ciclagem de nutrientes, manejo de populações de pragas, uso eficiente de energia, estabilidade, etc.

Vejamos um simples exemplo de como isto ocorre: uma das práticas agrícolas usadas para aumentar a diversidade de um sistema de cultivos é o uso de cultivo de cobertura ou cobertura viva do solo que tem como objetivo alem de outros, eliminar o uso de herbicidas, em um experimento na EMBRAPA Agrobiologia segundo dados de Espindola et al (2000) “em 4 m2 em área com amendoim forrageiro e cudzu tropical, só foram encontradas 7 e 6 indivíduos de outras espécies respectivamente”.

Outro exemplo na Califórnia citado por Gliessman(2001)”Envolvendo ervas adventícias comparada com herbicida e plástico, a Brassica kaber ou mostarda silvestre apresentou a mesma eficiência do herbicida e do plástico; aos 45 dias perfazia 99% da composição botânica da área conseguindo inibir por uma interferência de adição (ela libera no meio compostos conhecidos como glucossinolatos que em laboratório inibem principalmente a germinação de gramíneas monocotiledôneas) as outras ervas.

Isto trouxe logo de inicio uma vantagem em termos de conservação do solo(menor escorrimento superficial da água de chuvas e menor compactação) do uso mais eficiente da energia por dispensar herbicidas e mão de obra na eliminação constante das ervas.

Mas o interessante é que no tratamento com a mostarda a produtividade das macieiras foi três vezes superior, e as plantas apresentavam após dois anos diâmetros 50% maiores, isso se deu pelo fato, da imobilização durante o inverno do nitrogênio disponível no solo na biomassa da mostarda, o que não aconteceu nos tratamentos com herbicidas e plástico onde o nitrogênio foi lixiviado com as primeiras chuvas de primavera.

Este exemplo demonstra vários benefícios trazidos pelo aumento de uma espécie no sistema mostrando que houve melhor ciclagem de nutrientes e conservação do solo, melhor atração de insetos benéficos na área (polinizadores) e poderia também, apesar de neste caso não ter sido mensurado, atrair ou abrigar insetos parasitoides de pragas.

No entanto um outro exemplo que comprova isto e a presença de Spergula arvensis como cultivo de borda de couve de Bruxelas, aonde quando esta florescia havia um aumento na população de insetos controladores de pulgões sendo estes exemplos factíveis de como o aumento da diversidade e o seu manejo traz benefícios para um agroecossistema, no caso do Cacau precisamos pesquisar mais combinações de espécies com diversas funções no sistema e suas propriedades emergentes.

Outro aspecto da diversidade que não poderíamos deixar de citar é a funcional, principalmente espécies que tem a função de fixar nitrogênio no sistema, segundo Espindola et al (1997) “Em área cultivada com batata doce consorciada com mucuna preta a produtividade de tubérculos foi de 20,1 toneladas contra 14 toneladas no tratamento manejado com capina”.

Também segundo Ribas et al (2002) “Em cultivo de quiabeiro consorciado com crotalaria, este produziu 30,81 toneladas de frutos contra 27,23 da testemunha, alem disso a leguminosa teve a função de inibir a infestação de nematóides, no quiabeiro em monocultivo foi de 3,65 (nota) contra 1,32 na área com crotalaria”.

Importância para a Agricultura Familiar

A mais importante propriedade emergente de um Agroecossistema para a Agricultura familiar em função da necessidade de otimizar a sua força de trabalho seria a sobreprodutividade, que é aquilo que se produz a mais em termos de biomassa liquida ou alimento num policultivo comparado à mesma área de monocultura medido pelo índice equivalente de área (IEA) ou de uso eficiente da terra.

No Brasil temos alguns exemplos fornecidos pela EMBRAPA Agrobiologia segundo Sudo et al (1997) para hortaliças onde: “alface com cenoura ou beterraba avaliados pelo IEA foram 84 e 37% mais produtivos do que os respectivos monocultivos”.

Numa comparação de policultivo de milho, feijão e moranga na América Central Gliessman (2001), em sua totalidade (a soma dos três cultivos) chegou a 97% a mais de produção quando comparado com monocultivos.

Além disso, varias outras propriedades emergentes além da sobreprodutividade caracterizam este sistema: o feijão na presença do milho fixa mais nitrogênio do ar; o nitrogênio fixado torna-se diretamente disponível para o milho, através de conexões de micorrizas entre os sistemas radiculares; foi observado ganho liquido de nitrogênio, a despeito de sua remoção pela colheita; a moranga ajuda no controle de ervas adventícias(mais conhecidas pelo nome de daninhas) bloqueando através de suas folhas a luz solar; insetos herbívoros têm mais dificuldades em localizar sua fonte de alimento na mescla de cultivos; insetos benéficos são beneficiados pela maior diversidade de microclimas e fontes de pólen.

Está condição nos leva a uma maior produção de alimentos por área, além de uma serie de outras condições vantajosas do ponto de vista ambiental, energético e social.

Sob o ponto de vista econômico a associação de culturas poderá não ser vantajosa(o que não acontece em sua maioria), em função do que cada cultura produz em determinado arranjo e ambiente, e a flutuação de seus preços de mercado, no entanto para o produtor o risco é bem menor.

Os vários aspectos sócio-ambientais que levam a uma maior sustentabilidade e estabilidade do sistema entre os quais podemos citar: maior estabilidade de produção (principalmente em áreas de instabilidade climática), interceptação mais efetiva da radiação luminosa, melhor utilização da terra, maior retorno por unidade de área, melhor exploração de água e nutrientes nas diferentes camadas de solo (nicho diversificado e diversidade vertical no subsistema solo), melhor utilização da força de trabalho (muito importante em pequenas propriedades familiares), maior eficiência no controle de ervas adventícias, melhor equilíbrio da população de pragas e doenças, melhor proteção do solo pela cobertura foliar (cobertura viva) e sistema radicular, disponibilidade de mais de uma fonte alimentar e maiores retornos econômicos.

Conclusão

No caso do Cacau o sistema cabruca e derruba total apresentam claramente algumas dessas vantagens, outras, no entanto podem ser potencializadas e melhoradas, precisamos para isto primeiro conhecer as propriedades emergentes dos dois agroecossistemas colocados, cabruca e derruba total, definirmos a diversificação econômica através da diversidade espécies como uma prioridade para atingirmos o desenvolvimento sustentável em todos seus aspectos (ambiental, social e econômico) e elegermos a agroecologia como ciência básica construindo indicadores de sustentabilidade na busca do melhor modelo.

Ainda que sabendo que os exemplos aqui citados, não se refiram a agrofloresta que é a associação de cultivos de plantas ou animais com árvores, cuja função pode ser de proteção ou produção, fazendo uso das vantagens de diversidade e de sucessão (processo de mudança no ambiente em função das espécies que vão sendo substituídas por outras naturalmente) cujo sistema cabruca é constantemente citado como exemplo, fica claro que as demandas de pesquisa nesta área são essenciais para o futuro desta região, sendo, pois prioritária por ser a possibilidade mais factível de nos aproximarmos do tão propalado desenvolvimento sustentável.

ReferÊncia Bibliográfica

Espindola,J.A.A.; Almeida,D.L; Guerra,J.G.M. Benefícios da Adubação Verde Sobre a Simbiose Micorrizica e a Produtividade da Batata Doce. EMBRAPA – CNPAB, (Comunicado Técnico n. 14), Janeiro de 1997, Seropedica – RJ.

Espindola,J.A.A.; Oliveira,S.J.C; Carvalho,G.J.A; Souza,C.L.M; Perin,A; Guerra,J.G.M; Teixeira, M.G. Potencial Alelopatico e Controle de Plantas Invasoras Por Leguminosas Herbáceas Perenes Consorciadas com Bananeiras. EMBRAPA – CNPAB (Comunicado Técnico n. 47), Fevereiro 2000, Seropedica – RJ.

Gliessman,S.R. Agroecologia: Processos Ecológicos em Agricultura Sustentável. Porto Alegre: Editora da Universidade, 2 ed, 2001, 653 p.

Ribas,R.G.T; Junqueira,R.M; Oliveira,F.L;Guerra,J.G.M; Almeida,D.L; Ribeiro,R.L.D. Adubação Verde na Forma de Consorcio no Cultivo do Quiabeiro Sob manejo Orgânico. EMBRAPA – CNPAB, (comunicado técnico n. 54), Dezembro 2002, Seropedica – RJ.

Sudo,A; Guerra,J.G.M; Almeida,D.L; Ribeiro,R.L.D. Avaliação do Consorcio Cenoura com Alface em Sistema Orgânico de Produção. EMBRAPA – CNPAB, (Comunicado Técnico n. 17), Dezembro 1997, Seropedica –RJ.

 

Durval Libânio Netto Mello
Eng˚ Agrônomo, Instituto Floresta Viva
Jose Vivaldo Souza de Mendonça Filho
Estudante de Agronomia da UESC e estagiário do programa ONG Forte.