DESENVOLVIMENTO E ADOÇÃO DO AMENDOIM FORRAGEIRO (Arachis pintoí  KRAPOV & GREGORY) CULTIVAR BELMONTE

Pereira, J.M; Rezende, C. de P. & Moreno-Ruiz, M.A.

 Pesquisadores da CEPLAC - Centro de Pesquisas do Cacau, Caixa Postal 07, 45.600-970. Itabuna,, BA, Brasil – e-mail: jmarques@cepec.gov.br

Introdução

As vantagens do uso de leguminosas nos sistemas de produção de ruminantes são inquestionáveis. São evidenciadas pelo incremento na produção animal,  aumento na qualidade e na quantidade da forragem em oferta, proporcionados pela participação da leguminosa na dieta do animal e pelos efeitos diretos e indiretos decorrentes do suprimento de nitrogênio ao ecossistema de pastagem (PEREIRA, 2002).

No entanto a adoção de leguminosas nos sistemas de produção é considerada baixa, principalmente quando comparada aos esforços que as instituições de pesquisas nacionais têm dedicado ao estudo com leguminosas forrageiras tropicais. A principal restrição à maior utilização de leguminosas tem sido debitada a sua baixa persistência nas pastagens quando em associação com gramíneas (BARCELOS et al., 2000; PEREIRA, 2002)

No sul da Bahia a situação não é diferente. Vários ensaios de avaliação de leguminosas foram implantados nas últimas décadas, envolvendo dezenas de acessos, os quais ao chegarem aos estágios de avaliação sob pastejo não apresentaram sustentabilidade suficiente para respaldar o seu lançamento. Felizmente no início da década de noventa incluiu-se nos estudos de avaliação, o amendoim forrageiro (Arachis sp.), onde se destacou o acesso BRA 031828 (Arachis pintoí Krapov & Gregory), lançado pela Ceplac, como cv. Belmonte.

Este trabalho resume as pesquisas que respaldaram o lançamento dessa leguminosa e as estratégias utilizadas para sua difusão e adoção.

Resumo da pesquisa realizada

A cv. Belmonte que corresponde ao acesso registrado na Cenargen/Embrapa sob o número BRA 031828, foi introduzido na sede da Ceplac em Ilhéus, BA, no início da década de oitenta para fins de jardinagem e no campo agrostológico do Centro de Pesquisas do Cacau, neste mesmo município, onde foram feitas as avaliações iniciais quanto ao seu potencial forrageiro.

A origem deste material foi provavelmente derivada da coleta inicial feita pela expedição liderada pelo professor Geraldo Pinto em 1954, na localidade denominada Boca do Córrego, município de Belmonte, tendo sido introduzido no IPEAL em Cruz das Almas e posteriormente distribuído para incorporação a bancos de germoplasma em diversos pontos do Brasil e do mundo (VALLS et al., 1993). No início dos trabalhos, a cv. Belmonte havia sido assumida como sendo da espécie A. repens. Depois foi reconfirmada como sendo da espécie A. pintoí  pelo Dr. Krapovickas.

A seguir são comentados alguns resultados experimentais que respaldaram o lançamento e difusão da cv. Belmonte. A maioria dos ensaios foram realizados na Estação de Zootecnia da Ceplac, localizada no município de Itabela (BA), localidade com 1350 mm de chuvas e sem estação seca definida.

Avaliação agronômica realizada em Itabela, envolvendo 29 acessos de Arachis spp, incluindo o Arachis pintoí cv. Belmonte como testemunha local e Arachis pintoí cv. Amarillo como testemunha comercial, indicou superioridade de produção para a cv. Belmonte sobre 23 dos acessos avaliados incluindo a cv. Amarillo (p < 0,05) e produção similar a obtida em cinco novos acessos ( MORENO-RUIZ,  trabalho encaminhado ao IV Arachis) (Tabela 1). VALENTIN et al., (2003),verificou que nas condições do Rio Branco (AC) as cv. Belmonte e Amarillo  não diferiram quanto a produção de MS (2.373 x 2.639 kg/ha, p > 0,05). PIZARRO et al., (1997), em ensaio de pastejo em pequenas parcelas realizado em Planaltina, DF, avaliou cinco acessos de amendoim forrageiro consorciados com Paspalum maritimum e concluiu que a cv. Belmonte (BRA 031828) embora não  tenha apresentado  produção de MS significativamente superior às demais, se sobressaiu pela sua rapidez de estabelecimento, persistência, agressividade e bom estado sanitário. A MS disponível total da associação com cv. Belmonte foi de 12,90 t/ha, e co a cv. Amarillo de 9,90 t/ha.

Tabela 1. Produção de MS das cultivares, Belmonte e Amarillo, no sul da Bahia.Cultivar

Cultivar

Máxima precipitação

Mínima precipitação

 

______________________ kg/ha _____________________

Belmonte

1192,2a

729,8a

Amarillo

591,4b

249,9b

a,b = P < 0,05 (Turkey)

Adaptado de MORENO-RUIZ (Trabalho encaminhado ao IV Arachis)

Em 1991, (SANTANA et al., 1998) iniciaram na Estação de Zootecnia da Ceplac, em Itabela, BA, a primeira avaliação do amendoim forrageiro cv. Belmonte sob pastejo, em consorciação com Brachiaria dictyoneura, submetida a quatro taxas de lotação, durante o período de 14.05.1992 a 18.02.1996.  Ocorreu efeito linear negativo da taxa de lotação sobre o ganho de peso dos animais e sobre a disponibilidade total de pasto, mas a oferta da leguminosa não foi afetada pela lotação, indicando a sua elevada persistência sob pastejo. Ao final do experimento a participação da cv. Belmonte no pasto em oferta estava entre 8,5 a 15%, indicando aumento com o avanço do tempo de pastejo (Tabela 2). A persistência da cv. Belmonte foi comprovada em outro ensaio, também em Itabela, BA, na consorciação com B. humidicola, em pastejo continuo e com controle da oferta de pasto, onde a leguminosa participou em 12,2 % e 7,6 % do pasto disponível respectivamente no 1º e 2º anos experimentais (PEREIRA et al., 1996).  Em Planaltina, DF, na consorciação com Paspalum  maritimum, após um ano de pastejo a proporção da cv. Belmonte era de 59% (PIZARRO et al., 1997).

Tabela 2. Proporção de Arachis pintoí cv. Belmonte na matéria seca do pasto verde total disponível em cada taxa de lotação no início e no final do experimento.

Lotação (nov/ha)

% Leguminosa

Início (14.05.92)

Final (18.12.96)

1,6

8,4

8,5

2,4

7,6

14,6

3,2

8,0

12,8

4,0

8,4

15,0

 A produção animal obtida em pastagens consorciadas com o amendoim forrageiro cv. Belmonte nos ensaios que antecederam o seu lançamento são bastante satisfatórios. Em Itabela,  SANTANA et al., (1998), em associação  do amendoim com B. dictyoneura encontraram ganhos de peso médios diários e ganhos de peso médios por ha/dia, em quatro anos de pastejo para as taxas de lotações de 1,6; 2,4; 3,2 e 4 novilhos/ha de respectivamente 547, 525, 638 e 547 g/novilho/dia e de 870, 1418, 1826 e 1942 g/ha/dia. Os resultados são considerados bons, principalmente porque incluem períodos de máximas e de mínimas precipitações. Em ensaio, também realizado em Itabela, onde se avaliou a produção animal de pastagem da cv. B. humidicola em monocultivo, com acesso dos animais à mistura suplemento mineral mais uréia, adubado com 150 kg/ha de N, consorciado com  a Belmonte e associado ao S. guianensis em forma de banco de proteína, verificou-se  maior ganho de peso diário para pastagem consorciada com amendoim forrageiro (PEREIRA et al., 1996) (Tabelas 3 e 4). Os dados permitem concluir que mesmo consorciada com gramíneas reconhecidamente de baixa qualidade, a cv. Belmonte contribuiu para ganhos diários quase sempre superiores a 500 g.

Tabela 3.  Ganho de peso diário (g/novilho/dia), ganho de peso por hectare (kg/ha), dias animais/ha e unidade animal/ha (UA/ha) obtidos em pastagens de Brachiaria humidicola, submetidas a diferentes formas de suplementação com nitrogênio no primeiro período experimental(1).

Tratamentos(2)

G/novilho/dia

Kg/ha

dias-animais/ha

UA/ha

CH + SU

322b

177,1ª

548,2ª

1,3ª

CH + NM

326b

185,0a

566,6a

1,3a

BH + cv. Belmonte

455a

196,2a

429,4b

1,1ab

BH + SG

409ab

196,2a

232,8a

1,1a

CV (%)

12,09

26,1

9,3

11,4

ab – Médias seguidas da mesma letra não diferem significativamente (P > 0,05) entre si, pelo teste de Tukey.

(1) Período de 07.10.1992 a 09.09.1993 (294 dias)

(2) CH + SU = humidicola + (suplemento mineral + uréia 1:1)

CH + NM = humidicola, adubada com 150 kg/ha de nitrogênio

BH + Belmonte = humidicola, consorciada com cv. Belmonte, em faixas

BH + SG = humidicola, consorciada com Stylosanthes guianensis

Tabela 4. Ganho de peso diário (g/novilho/dia), ganho de peso por hectare (kg/ha), dias animais/ha e unidade animal/ha (UA/há) obtidos em pastagens de Brachiaria humidicola, com diferentes formas de suplementação de nitrogênio, no segundo período experimental(2)

 

Tratamentos(2)

G/novilho/dia

Kg/ha

dias-animais/ha

UA/ha

CH + SU

433a

343,2ª

791,3ªb

1,6b

CH + NM

485a

396,7a

817,0a

1,8a

BH + cv. Belmonte

510a

373,7a

732,9c

1,7ab

BH + SG

477a

363,5a

760,7bc

1,7ab

CV (%)

10,49

19,0

3,5

13,2

ab – Médias seguidas da mesma letra não diferem significativamente (P > 0,05) entre si, pelo teste de Tukey.

(1) Período de 18.05.1994 a 29.05.1995 (379 dias)

(2) CH + SU = humidicola + (suplemento mineral + uréia 1:1)

CH + NM = humidicola, adubada com 150 kg/ha de nitrogênio

BH + Belmonte = humidicola, consorciada com cv. Belmonte, em faixas

BH + SG =  humidicola, consorciada com Stylosanthes guianensis

A literatura reporta aumentos médios de 20% na produção de leite obtidos em pastagens consorciadas com Arachis spp.  Em Itabela, BA, dados obtidos com o rebanho comercial da estação experimental, em pastejo rotacionado, indicaram aumentos na produção de 20,3 % e 12,4 %, respectivamente na consorciação da cv. Belmonte com B. dictyoneura em comparação, respectivamente com pastagens de B. brizantha cv. Marandu e B. decumbens, exclusivas (CLAUDIA REZENDE, dados não publicados).

Os níveis de proteína bruta encontrados nos ensaios realizados com a cv. Belmonte, são considerados ótimos e não diferem muito daquele encontrado para outros acessos. No ensaio de pastejo realizado por SANTANA et al, (1998),  o teor médio de proteína bruta, na leguminosa, em quatro taxas de lotação e em quatro anos foi de 19%, com efeito positivo da TL sobre os teores de proteína bruta obtidos. PEREIRA et al. (1996) na consorciação com B. humidicola encontraram valores de 17,9% e 18,6 % para a cultivar Belmonte e de 12,5 % e 15,5 % para a S. guianensis, respectivamente no 1º e 2º anos experimentais. VALENTIM et al.,(2003) em ensaio de estabelecimento incluindo esses dois acessos encontrou 17,9 % de proteína bruta para a cultivar Belmonte e 19,8 % para a cultivar Amarillo. 

Face a sua baixa produção de sementes, a propagação da cv.  Belmonte é feita vegetativamente, utilizando-se mudas e estolões. No entanto face a sua agressividade e rapidez de formação (PIZARRO et al, 1997 e VALENTIM et al, 2003) isto não seria problema para a difusão da cultivar.

Difusão e adoção da A. pintoí cv. Belmonte

                Considerando o excelente potencial forrageiro do A. pintoí, BRA – 01311828, caracterizada pela agressividade em se estabelecer, pela persistência em associação com gramíneas igualmente agressivas e também sob alta pressão de pastejo, pelo elevado valor nutritivo e pelo significativo aumento na produção animal, a Ceplac  decidiu lança-lo e difundi-lo como uma nova cultivar , denominada de Belmonte em homenagem ao município que a originou.

                Assim, em 18 de maio de 1999, realizou-se lançamento da cultivar, através da realização de um dia-de-campo na Estação de Zootecnia da Ceplac, Itabela, BA, com a participação de cerca de 300 produtores. O dia-de-campo constou de palestras sobre as características da forrageira, visita às áreas experimentais e distribuição de mudas para os participantes.

                As adoções decorrentes deste evento não foram muito numerosas, mas pelo menos 300 ha de áreas consorciadas foram contabilizados, no ano seguinte ao lançamento.

                Com a edição de uma reportagem sobre Arachis veiculada no programa Globo Rural, no dia 13 de abril de 2003 e reapresentada em 15 de fevereiro de 2004, onde os resultados experimentais e do uso por produtores da cv. Belmonte e do  Arachis pintoí em geral,foram apresentados, a Ceplac foi intensamente requisitada por informações e por fornecimento de propágulos de amendoim forrageiro, através de milhares de telefonemas, cartas e e-mails.

                Somente após a reapresentação do programa, e até o fechamento deste relato em 04 de maio de 2004, 3.091 cartas foram postadas para atender solicitações de informações técnicas e sobre como adquirir o material.

                A estratégia de distribuição adotada pela Ceplac foi a venda via FUNPAB (Fundação Pau Brasil) de kits contendo cerca de 8 kg de estolões/mudas, acondicionados em caixa de isopor de 70 litros, encaminhados via sedex para todo o Brasil. A expectativa é que de posse do kit o produtor implante um campo de propagação de cerca de 400m2, tornando-se futuramente auto-suficiente para implantar suas pastagens. Os produtores podem também adquirir o produto diretamente nas estações da Ceplac, sendo o custo  por menor. Esta informação inclusive com preços foram disponibilizadas  no site da Ceplac (www.ceplac.gov.br).

                Até a data de 04 de maio de 2004 haviam sido distribuídos 10649 kg de propágulos contemplando 1066 produtores, distribuídos nas diferentes regiões do Brasil  (Tabela 5). Os estados que mais adquiriram foram São Paulo, Minas Gerais e Bahia.

Tabela 5.  Distribuição de propágulos de amendoim forrageiro cv. Belmonte pela Ceplac, por região.

Regiões

Produtores

Quantidade

Quantidade

%

Kg

%

Norte

45

4,22

510

4,79

Nordeste

269

25,24

3.822

35,89

Sudeste

455

42,68

3.884

36,48

Centro Oeste

144

13,51

1.210

11,36

Sul

153

14,35

1.223

11,48

Total

1066

      100

10.649

       100

                No segundo semestre de 2002 a empresa Sementes Mineirão fez um acordo com a Fundação Pau Brasil/Cepec para multiplicação deste material, mas não se dispõe  de informações da quantidade de material distribuído ou comercializado. A Embrapa – Acre, também tem distribuído este material em larga escala.

                De qualquer forma acredita-se que o material distribuído até o momento já tenha alcançado grande efeito multiplicador, contribuindo para a difusão do uso do amendoim forrageiro em todo território nacional,  onde as condições climáticas permitam. Não se tem notícias na história do uso de leguminosas forrageiras no Brasil, tamanho interesse, o que abre expectativa  para a maior adoção de leguminosas pelos pecuaristas brasileiros. Por outro lado também tem despertado grande interesse das instituições de pesquisas em aprofundar e diversificar os estudos com estas forrageiras.

Referências Bibliográficas

BARCELLOS,  A. de  O.; ANDRADE, R. P. de; KARIA, C. T. et al. Potencial e uso de leguminosas forrageiras dos gêneros Stylosanthes, Arachis e Leucaena. In: SIMPÓSIO SOBRE MANEJO DA PASTAGEM, 17, 2000,  Piracicaba. Anais... Piracicaba: FEALQ, 2000, p. 297-357.

PEREIRA, J. M. Leguminosas forrageiras em sistemas de produção de ruminantes: Onde estamos? Para onde vamos? In: SIMPÓSIO SOBRE MANEJO ESTRATÉGICO DA PASTAGEM, 2002, Viçosa. Anais... Viçosa: UFV, 2002, p. 109-148.

PEREIRA, J. M.: SANTANA, J. R. de, & REZENDE, C. de P. Alternativa para aumentar o aporte  de nitrogênio em pastagens formadas por capim humidicola. In: REUNIÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 39, 1996, Fortaleza. Anais... Fortaleza: SBZ, 1996, p. 38-40.

PIZARRO, E. A.; RAMOS, A. K. B. e CARVALHO, M. A. Producción y persistência de silde accesiones de Arachis pintoí associado com Paspalum maritimum em el cerrado brasileño. Pasturas Tropicales, v. 19, n. 2. p. 40-44, 1997.

SANTANA, J. R. de.; PEREIRA, J. M.  e REZENDE, C. de P. Avaliação da consorciação de Brachiaria dictyoneura Stapf. Com Arachis pintoí Kaprov & Gregory sob pastejo. In: REUNIÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 35. 1998. Botucatu. Anais... Botucatu: SBZ, 1998, p. 406-408.

VAALS, J. F. M.; MAASS, B. L e LOPES, C. R. Genetic Resources of Wild Arachis and Genetic Diversity. In: KERRIEDGE, P. C., & HARDY, B. (ed.). Biology and Agronomy of forage Arachis. Cali: CIAT, 1994, p. 28-42.

VALENTIM, J. F., et all. Velocidade de estabelecimento de acessos de amendoim forrageiro na Amazônia Ocidental. R. DA SOC. BRAS.  DE ZOOTECNIA, v. 32. n. 6. p. 1569-1577 (Supl. 1).