No sul da Bahia, matas remanescentes da Floresta Atlântica vêm
sendo derrubadas para dar lugar a empreendimentos imobiliários.
Com isso, plantas e animais silvestres estão ameaçados. É o que
está acontecendo com o bicho-preguiça.
Esse bicho preguiça apareceu na beira da estrada que liga Ilhéus
a Canavieiras. Por pouco não morre atropelado. Seu Aguinaldo
Oliveira, vigia de uma pousada, foi quem salvou o bicho§ e, em
seguida, chamou o Ibama. Ele conta que resolveu procurar o Ibama
porque ao assistir o Globo Rural e anotou o telefone do Ibama.
Sempre que se encontra uma preguiça nessa região, a doutora Vera
Lúcia de Oliveira é chamada. Bióloga, ela é especialista nesse
animal.
Com cuidado, a preguiça é retirada da árvore e demonstra uma de
suas principais características: a docilidade. Juntando isso aos
movimentos lentos, o animal vira presa fácil para caçadores e
comerciantes. Ela conta que a preguiça sai do mato para
encontrar alimento que está escasso na floresta.
A doutora Vera chega a receber dois, três animais desses por
mês. Todos são levados para o centro de recuperação do
bicho-preguiça, em Itabuna. É um departamento da Ceplac,
Comissão Executiva para o Plano da Lavoura Cacaueira -
instituição de pesquisa do cacau e de outras culturas da região,
que também está preocupada com a preservação do meio ambiente.
O centro de recuperação das preguiças já existe há mais de 4
anos e vem recebendo animais do Brasil inteiro.
A preguiça é parente distante de um bicho pré-histórico que
tinha seis metros de comprimento e pesava cinco toneladas: a
preguiça gigante. No Brasil, existem 5 espécies de
bichos-preguiças.
O centro trabalha com as duas espécies que vivem na Mata
Atlântica: a preguiça-comum, que também aparece em outros países
da América Latina, e a preguiça de coleira, que só existe no
Brasil numa faixa pequena entre o Rio de Janeiro e a Bahia. E
por isso mesmo, está ameaçada de extinção. Ela tem esse nome por
causa do colar de pelos mais escuros que circunda o pescoço e o
dorso do animal. Parece mesmo uma coleira.
O primeiro passo quando uma preguiça chega ao centro é livrar o
animal do estresse. A doutora Vera diz que há uma estrutura toda
montada para o animal ficar pendurado que é a postura dele.
“§Ela entra na telha e não quer descer nem se alimentar, como se
estivesse com raiva, chateada –§ ela fica na telha dois dias –§
algumas um dia. Temos que colocar uma vara com alimento , ali
ela vai se acostumando com o cheiro do alimento. O cheiro
estimula o apetite, então ele começa a comer. O animal se
alimentar é o sinal da recuperação do animal. “§
Se o animal chega ferido, o procedimento é outro. Mesmo
estressado ele tem que receber os cuidados necessários.
A preguiça passa a maior parte do tempo dormindo e tem hábitos
estranhos. Não bebe água e só desce das árvores uma vez por
semana para fazer cocô.
Tem grandes garras, que garantem a sustentação do animal nos
galhos. E essa é a postura normal do bicho-preguiça. Ele não
fica em pé, só se sente confortável dependurado.
Na hora de comer, a preguiça é muito seletiva. Se alimenta
apenas de folhas e frutos de poucas árvores da floresta
atlântica. “§As preguiças preferem a gameleira, principalmente,
porque ela é uma associação de duas . A gameleira parasita a
cajazeira. Elas têm duas opções de comida”§, conta doutora Vera.
“§A ibiruçu é outra espécie de preferência da preguiça. O tronco
dela é imenso. Ela passa para árvore pelas copas, ela não
consegue abraçar o tronco”§.
A preguiça também gosta das folhas de outras duas árvores: a
tararanga e a embaúba. A preguiça de coleira é ainda mais
exigente: só gosta de algumas partes da folha, que ela escolhe
cheirando antes de comer.
As preguiças tem em média 60, 65 centímetros de altura e pesam
de 3,5 a 6 quilos. Outra curiosidade: ela consegue girar a
cabeça 270 graus, sem mexer o corpo.
Distinguir machos e fêmeas não é difícil. A fêmea da
preguiça-de-coleira tem uma mancha branca no dorso e o macho da
preguiça comum tem nas costas um desenho marrom e amarelo que
lembra uma flecha.
A prenhês da preguiça dura 11 meses. A mãe carrega o filhote
pendurado ao pescoço por seis, sete meses.
O principal inimigo natural da preguiça é a harpía, que consegue
arrancá-la do topo das árvores e carregá-la para o ninho. Onças
e cobras também comem preguiça.
O regime no centro de recuperação é de semi cativeiro. Os
animais, que estão com boas condições de saúde, podem sair do
viveiro. Eles vão para árvores de alimento cercadas, para evitar
que fujam antes de estarem prontas para voltar à natureza.
Doutora Vera coloca todos os dias “§quando eles me pedem. Às
vezes eles passam três dias na árvore”§.
Uma preguiça é uma fêmea filhote que tem , mais ou menos, sete
meses. A mãe dela foi morta e ela foi para lá. Doutora Vera diz
que é comum matarem as mães e os filhotes irem para o centro.
“§As preguiça, antigamente, eram comidas. Hoje, eles vendem os
animais. Só que muita gente compra enganado, é um animal
silvestre delicado, dócil, que parece um bicho de pelúcia, mas
as pessoas não sabem como alimentar. Ele jamais viverá como
animal doméstico, ele acaba morrendo”§.
Por enquanto, as preguiças são liberadas na mata da própria
Ceplac, que foi enriquecida com as plantas que elas gostam de
comer. Pelo menos aqui, vão viver em segurança. Podem encontrar
seus inimigos naturais. Mas estão livres de seu maior predador:
o homem.
Clipping do Globo Rural |
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