Animais ameaçados
  24.03.2002
No sul da Bahia, matas remanescentes da Floresta Atlântica vêm sendo derrubadas para dar lugar a empreendimentos imobiliários. Com isso, plantas e animais silvestres estão ameaçados. É o que está acontecendo com o bicho-preguiça.

Esse bicho preguiça apareceu na beira da estrada que liga Ilhéus a Canavieiras. Por pouco não morre atropelado. Seu Aguinaldo Oliveira, vigia de uma pousada, foi quem salvou o bicho§ e, em seguida, chamou o Ibama. Ele conta que resolveu procurar o Ibama porque ao assistir o Globo Rural e anotou o telefone do Ibama.

Sempre que se encontra uma preguiça nessa região, a doutora Vera Lúcia de Oliveira é chamada. Bióloga, ela é especialista nesse animal.

Com cuidado, a preguiça é retirada da árvore e demonstra uma de suas principais características: a docilidade. Juntando isso aos movimentos lentos, o animal vira presa fácil para caçadores e comerciantes. Ela conta que a preguiça sai do mato para encontrar alimento que está escasso na floresta.

A doutora Vera chega a receber dois, três animais desses por mês. Todos são levados para o centro de recuperação do bicho-preguiça, em Itabuna. É um departamento da Ceplac, Comissão Executiva para o Plano da Lavoura Cacaueira - instituição de pesquisa do cacau e de outras culturas da região, que também está preocupada com a preservação do meio ambiente.

O centro de recuperação das preguiças já existe há mais de 4 anos e vem recebendo animais do Brasil inteiro.

A preguiça é parente distante de um bicho pré-histórico que tinha seis metros de comprimento e pesava cinco toneladas: a preguiça gigante. No Brasil, existem 5 espécies de bichos-preguiças.

O centro trabalha com as duas espécies que vivem na Mata Atlântica: a preguiça-comum, que também aparece em outros países da América Latina, e a preguiça de coleira, que só existe no Brasil numa faixa pequena entre o Rio de Janeiro e a Bahia. E por isso mesmo, está ameaçada de extinção. Ela tem esse nome por causa do colar de pelos mais escuros que circunda o pescoço e o dorso do animal. Parece mesmo uma coleira.

O primeiro passo quando uma preguiça chega ao centro é livrar o animal do estresse. A doutora Vera diz que há uma estrutura toda montada para o animal ficar pendurado que é a postura dele. “§Ela entra na telha e não quer descer nem se alimentar, como se estivesse com raiva, chateada –§ ela fica na telha dois dias –§ algumas um dia. Temos que colocar uma vara com alimento , ali ela vai se acostumando com o cheiro do alimento. O cheiro estimula o apetite, então ele começa a comer. O animal se alimentar é o sinal da recuperação do animal. “§

Se o animal chega ferido, o procedimento é outro. Mesmo estressado ele tem que receber os cuidados necessários.

A preguiça passa a maior parte do tempo dormindo e tem hábitos estranhos. Não bebe água e só desce das árvores uma vez por semana para fazer cocô.

Tem grandes garras, que garantem a sustentação do animal nos galhos. E essa é a postura normal do bicho-preguiça. Ele não fica em pé, só se sente confortável dependurado.

Na hora de comer, a preguiça é muito seletiva. Se alimenta apenas de folhas e frutos de poucas árvores da floresta atlântica. “§As preguiças preferem a gameleira, principalmente, porque ela é uma associação de duas . A gameleira parasita a cajazeira. Elas têm duas opções de comida”§, conta doutora Vera. “§A ibiruçu é outra espécie de preferência da preguiça. O tronco dela é imenso. Ela passa para árvore pelas copas, ela não consegue abraçar o tronco”§.

A preguiça também gosta das folhas de outras duas árvores: a tararanga e a embaúba. A preguiça de coleira é ainda mais exigente: só gosta de algumas partes da folha, que ela escolhe cheirando antes de comer.

As preguiças tem em média 60, 65 centímetros de altura e pesam de 3,5 a 6 quilos. Outra curiosidade: ela consegue girar a cabeça 270 graus, sem mexer o corpo.

Distinguir machos e fêmeas não é difícil. A fêmea da preguiça-de-coleira tem uma mancha branca no dorso e o macho da preguiça comum tem nas costas um desenho marrom e amarelo que lembra uma flecha.

A prenhês da preguiça dura 11 meses. A mãe carrega o filhote pendurado ao pescoço por seis, sete meses.

O principal inimigo natural da preguiça é a harpía, que consegue arrancá-la do topo das árvores e carregá-la para o ninho. Onças e cobras também comem preguiça.

O regime no centro de recuperação é de semi cativeiro. Os animais, que estão com boas condições de saúde, podem sair do viveiro. Eles vão para árvores de alimento cercadas, para evitar que fujam antes de estarem prontas para voltar à natureza. Doutora Vera coloca todos os dias “§quando eles me pedem. Às vezes eles passam três dias na árvore”§.

Uma preguiça é uma fêmea filhote que tem , mais ou menos, sete meses. A mãe dela foi morta e ela foi para lá. Doutora Vera diz que é comum matarem as mães e os filhotes irem para o centro. “§As preguiça, antigamente, eram comidas. Hoje, eles vendem os animais. Só que muita gente compra enganado, é um animal silvestre delicado, dócil, que parece um bicho de pelúcia, mas as pessoas não sabem como alimentar. Ele jamais viverá como animal doméstico, ele acaba morrendo”§.

Por enquanto, as preguiças são liberadas na mata da própria Ceplac, que foi enriquecida com as plantas que elas gostam de comer. Pelo menos aqui, vão viver em segurança. Podem encontrar seus inimigos naturais. Mas estão livres de seu maior predador: o homem.

Clipping do Globo Rural